segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A arte que transforma e humaniza



Um filme sobre o trabalho de um artista plástico de renome seria até interessante, mas dependendo do enfoque, poderia ser chato. Lixo Extraordinário, dirigido pela britânica Lucy Walker (Devil’s Playground) e codirigido pelos brasileiros João Jardim (Pro Dia Nascer Feliz) e Karen Harley, mostra o lixo sendo transformado em arte pelas mãos de Vik Muniz, o brasileiro de infância pobre que é cultuado no mundo por sua criatividade. Filmado em quase três anos, o longa retrata um universo esquecido, mas que se revela muito inspirador.

A ideia era mostrar a experiência do artista que faria um trabalho com pessoas que viviam literalmente do lixo no Jardim Gramacho, o maior aterro sanitário do mundo, em termos de volume despejado diariamente. Criado na década de 70, o local é o destino de 70% dos resíduos sólidos do Rio de Janeiro e 100% de quatro outras cidades. Vik demonstra  preocupação social ao reverter todo o dinheiro deste trabalho para a comunidade local. É lógico que muitos o acusarão de marketing pessoal.

Tião, Zumbi, Suelem, Isis, Magna, Irma e Valter foram os catadores escolhidos por Vik para ilustrarem sua futura exposição. Porém, o artista resolveu que eles não apenas posariam para as fotos, mas também participariam do processo de confecção dos mosaicos com materiais recicláveis feitos a partir de suas imagens. O resultado é tão surpreendente quanto belo. Plástico, alumínio e papel, tudo ganha forma com a arte.

No entanto, o mais rico e tocante de Lixo Extraordinário são as histórias de vida dos personagens retratados. Por trás daquelas mãos calejadas pelo trabalho duro no lixão, existem perdas irreparáveis, amores desfeitos e sonhos de uma vida melhor. São pessoas sofridas, mas que valorizam o pouco que conquistaram. O sentimento que marca seus depoimentos é uma amálgama de vergonha e orgulho, tristeza e alegria, resignação e esperança.

Mesmo sem essa intenção, Lixo Extraordinário expõe que a pobreza no Brasil tem cor, mesmo que muitos não concordem. Os sete catadores retratados são negros, como a maioria que ali está. Esses trabalhadores não escolheram esse ofício, se pudessem, certamente largariam aquela vida. Nesse sentido, a maior obra de Vik foi fazer com eles se vissem por outro ângulo, respeitados em sua dignidade humana. Falando em autoestima, os catadores fazem questão de ressaltar que são catadores de materiais recicláveis e não de lixo como se convencionou chamá-los. 
 
A realidade de catadores de lixo já foi abordada em outros documentários brasileiros como Estamira e À Margem do Lixo. Mas no longa de Lucy, há uma preocupação estética maior, com destaque para a fotografia de Dudu Miranda. É incrível como é possível encontrar exuberância num aterro sanitário. Vencedor de prêmios de público nos festivais de Sundance e Berlim ano passado e premiado no Festival de Paulínia como melhor documentário tanto pelo Júri Especial quanto pelo Júri Popular, Lixo Extraordinário emociona ao mostrar o poder transformador da arte.

11 comentários:

J. BRUNO disse...

Conheci a um tempo atrás um outro artista que trabalhava com lixo... este serviu de inspiração para o trajes do personagem Dom Chico Chicote na 2° temporada da série Hoje é dia de Maria... Este artista era tido como louco e esquizofrênico, sua obra precisou ser conhecida primeiro no esterior para que ele tivesse um mínio de reconhecimento no Brasil... Fiquei com muita vontade de assistir ao documentário!
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http://sublimeirrealidade.blogspot.com/

Fernando disse...

Trabalho extraordinário que nos instiga a refletir sobre a nossa realidade.

Vale a pena conferir o longa!

Boa indicação.

Forte abraço,

Fernando Piovezam
http://seuanonimo.blogspot.com

MellChan disse...

Já está na minha lista...
Graças ao seu blog tenho mais filmes para assistir do que tempo, mas vou dar um jeito nisso!
Kissus...^^

Babi disse...

Ótima indicação p/ reflexão!!!
Vou conferir! abraço!

Michel Carvalho disse...

Oi Pessoal,

Obrigado pelos comentários, o filme realmente vale à pena. Me emocionei em alguns momentos com os relatos dos catadores, é bom ver que a arte transforma o interior das pessoas.

Espero que voltem a visitar o blog.

Um grande abraço

Marcel Camp disse...

ESSE FILME É MIL VEZES MELHOR QUE "LULA - O FILHO DO BRASIL"... PASSA MUITO SINCERIDADE, UMA BELEZA ONDE JAMAIS IMAGINARÍAMOS QUE TIVESSE!!!

MUITO MAIS HONESTO E MUITO MAIS CINEMA MESMO PARA REPRESENTAR O BRASIL, DO QUE AQUELE FILME DO PRESIDENTE!

ABS

T.S. Frank disse...

Foi uma excelente indicação!!! Mesmo sendo uma co-produção, só o fato do nome do Brasil está novamente no Oscar, é uma boa (apesar do Oscar ter mais erros que acertos.). No Brasil são produzidos ótimos documentários, uma pena termos poucas salas nesse quesito.

T.S. Frank
www.cafequenteesherlock.blogspot.com

George Nunes Bueno disse...

Texto bem crítico!

Parabéns!

Ainda quero muito ver esse documentário!

Não deixe de visitar o Blog também: http://www.leia-atentamente.blogspot.com (E "curti-lo" no Facebook)

Abraços!

Hugo Green disse...

Seguindo seu blog!

Segue o meu:

http://bloghugogreen.blogspot.com

Anônimo disse...

Ai sim cara salvou o dia com esse post. reportagem ótima!

parabéns!

Ítalo Richard disse...

Quero muito assistir a esse documentário. Espero que chega as telas daqui de salvador!

abraço,
www.todososouvidos.blogspot.com