terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A grande imprensa e a cruzada contra a Confecom

A 1ª Conferência Nacional de Comunicação, que vai até quinta em Brasília, está sendo bombardeada pela imprensa em geral. Uma das propostas mais questionadas é o controle social da mídia, acusada por entidades empresariais do setor como uma forma de censura, cerceando a liberdade de expressão e o direito à informação, previstos na Constituição.

A Confecom ainda é acusada de querer recriar cabides estatais de emprego, como a Embrafilme e de atender reivindicações corporativistas, como a volta das delegacias regionais do Ministério das Comunicações. As despesas com o evento também são criticadas. São 1.539 delegados, todos hospedados na rede hoteleira da capital, custeados pelo poder público.

A imprensa considera que a representatividade da Confecom ficou comprometida pela ausência de oito entidades empresariais, como a ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) e a ANJ (Associação Nacional de Jornais). Só restaram a ABRA, que inclui Bandeirantes e Rede TV, e as empresas de telefonias.

No entanto, os movimentos sociais e as entidades que lutam pela democratização dos meios sabem que o setor empresarial não quer discutir a política nacional de comunicação. A cobertura tendenciosa da Confecom demonstra o temor dos conglomerados.

Imagine uma Rede Globo tendo sua concessão questionada porque não ofereceu uma programação que privilegiasse conteúdos educativos e culturais ou porque não respeitou diversidade nem abriu espaço à produção regional. Isso só seria possível se fossem criados conselhos de comunicação nos âmbitos municipal, estadual e federal para avaliarem se o que está sendo veiculado em espaço público não desrespeita o que está previsto em lei.

Essa história que o único controle social da mídia que deve existir é o remoto não passa de uma falácia. A maioria da população brasileira ainda tem a TV aberta como a principal fonte de informação. Trocar de canal não significa nada, o que precisa ser mudado é o modelo de televisão existente no país. Não se pode tolerar que muitas emissoras de rádio e televisão estejam nas mãos de políticos. Para fortalecer a democracia, é preciso investir na comunicação universitária e comunitária.

Existem outras demandas urgentes na área da comunicação, talvez a Confecon não consiga avançar em todas elas, mas discutir o direito à informação no Brasil já pode ser considerado um marco histórico. E a internet, como um privilegiado espaço democrático, é o único meio de se atualizar realmente sobre o que vem sendo debatido em Brasília.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Romance sem drama nem clímax

É possível abordar temas tão polêmicos como incesto e homossexualismo de maneira singela e livre de conflitos? Do começo ao fim, do diretor Aluizio Abranches (Um copo de Cólera As Três Marias) se esforça, mas acaba se transformando num conto de fadas, perfeito e clean demais como um comercial de creme dental.


Filhos de pais diferentes, os irmãos Francisco (Rafael Cardoso) e Thomas (João Gabriel Vasconcelos) têm uma relação muito forte desde a infância. Thomas nasce cego e permanece assim durante várias semanas até um dia, sem mais nem menos, abre os olhos e a primeira pessoa que vê é seu irmão mais velho.


Aos poucos, a amizade natural entre irmãos se transforma num amor incondicional. A mãe dos meninos, Julieta (Julia Lemmertz) observa tudo atentamente, ora com ternura, ora com estranhamento. Ela não sabe o que está acontecendo direito com Thomas e Francisco, por isso, prefere deixar as coisas acontecerem naturalmente, evitando qualquer tipo de questionamento.


A transição para fase adulta dos rapazes é marcada por uma grande perda. A partir daí, eles começam a morar sozinhos e viver como namorados apaixonados, com direito até a aliança de compromisso. A história então mergulha num mundo irreal em que todos aprovam a incestuosa relação, inclusive o pai de Thomas, vivido por Fábio Assunção.


Numa das passagens do filme, Thomas afirma que para compreender o amor dele com o irmão seria preciso virar o mundo de ponta a cabeça. É neste ponto que o roteiro apresenta grandes fragilidades. Numa sociedade moralista como a brasileira, é difícil imaginar que ninguém reprove o relacionamento entre irmãos do mesmo sexo.


Cercado de polêmica, o trailer do filme se tornou hit na internet bem antes da estréia nos cinemas, gerando muitas expectativas. Mas Do começo ao fim frustra por trilhar um caminho sem pedras, numa história até ousada, mas sem emoção, que não cativa o público. O destaque são as atuações dos atores mirins, Lucas Cotrim e Gabriel Kaufmman, que vivem Francisco e Thomas, respectivamente.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A mídia ainda é racista?

Venício A. de Lima(*)

Uma pesquisa encomendada pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), realizada pelo Observatório Brasileiro de Mídia (OBM), analisou 972 matérias publicadas nos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo, e 121 nas revistas semanais Veja, Época e IstoÉ - 1093 matérias, no total - ao longo de oito anos.

No período compreendido entre 1º de janeiro de 2001 a 31 de dezembro de 2008, foi acompanhada a agenda da promoção da igualdade racial e das políticas de ações afirmativas em torno dos seguintes temas: cotas nas universidades, quilombolas, ação afirmativa, estatuto da igualdade racial, diversidade racial e religiões de matriz africana.

Não é possível reproduzir aqui todos os detalhes da pesquisa. Menciono apenas cinco achados de um relatório de quase 100 páginas.

1. Com graus diferentes, os jornais observados se posicionaram contrariamente aos principais pontos da agenda de interesse da população afrodescendente. Em toda a pesquisa, as políticas de reparação - ações afirmativas, cotas, Estatuto da Igualdade Racial e demarcação de terras quilombolas - tiveram o maior o percentual de textos com sentidos contrários: 22,2%.

2. As reportagens veicularam sentidos mais plurais do que os textos opinativos que, com pequenas variações, se posicionaram contrários à adoção das cotas, da aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e da demarcação de terras quilombolas. A argumentação central dos editoriais é de que esses instrumentos de reparação promovem racismo. Em relação à demarcação das terras quilombolas, os textos opinativos em O Estado de S.Paulo (78,6%) e O Globo (63,6%) criticaram o decreto nº 4.887/2003, que regulamenta a demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. O argumento principal foi o de que o critério da autodeclaração é falho e traz insegurança à propriedade privada.

3. A cobertura sobre ações afirmativas foi realizada, basicamente, em torno da política de cotas: 29,3% dos textos. Outros instrumentos pouco foram noticiados. O Estatuto da Igualdade Racial esteve presente apenas em 4,5% dos textos. A discussão sobre as ações afirmativas mereceu atenção de 18,9%. Quase 40% desses textos foram publicados em 2001, ano da Conferência sobre a Igualdade Racial em Durban, África do Sul. A lei 10.639/2003, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", praticamente não foi noticiada. Menções à lei foram feitas de forma periférica, em apenas 0,5% do total de textos, sem que os veículos tenham problematizado o assunto ou buscado dar visibilidade à sua aplicação.

A cobertura oferecida pelo jornal O Globo merece um comentário à parte. O jornal dedicou 38 editoriais sobre os vários temas pesquisados - destes, 25 (ou 65,8%) trataram especificamente de "cotas nas universidades". Os três jornais publicaram 32 editoriais sobre o mesmo assunto. O Globo foi, portanto, responsável por 78% deles.

Ainda que os principais argumentos contrários - as cotas e ações afirmativas iriam promover racismo (32%) ou os alunos cotistas iriam baixar o nível dos cursos (16%) - não tenham se confirmado nas instituições que implementaram as cotas, a posição editorial de O Globo não se alterou nos oito anos pesquisados.

4. Embora a maioria dos estudos e pesquisas realizadas por instituições como IBGE, IPEA, Seade, OIT, Unesco, ONU, UFRJ, Ibope e Datafolha, no período analisado, confirmem o acerto das políticas de ação afirmativa, apenas 5,8% dos textos publicados nos jornais noticiaram e debateram os dados revelados. Esses estudos e pesquisas trataram de assuntos como: menor salário de negros frente a brancos; menor presença de negros no ensino superior; negros como maiores vítimas da violência; e pouca presença de negros em cargos de chefia, dentre outros.

5. O noticiário das revistas semanais sobre a afrodescendencia e a promoção da igualdade racial teve características muito semelhantes ao encontrado nos jornais. Os textos com sentidos contrários às políticas de reparação (26,4%) foram em maior percentual do que aqueles com viés favorável (13,2%). Da mesma forma que nos jornais, a cobertura se concentrou nos programas de cotas - 33,1% - e o alto percentual dos textos que trataram das religiões de matriz africana (25,6%) foi o único que destoou da freqüência nos jornais: 4,7%.

Liberdades e direitos

Os resultados da importante pesquisa realizada pelo OBM denunciam um estranho paradoxo. Enquanto a grande mídia tem se revelado cada dia mais zelosa - aqui e, sobretudo, em alguns países da América Latina - com relação ao que chama de liberdade de imprensa (equacionada, sem mais, com a liberdade individual de expressão), o mesmo não acontece com a defesa de direitos fundamentais como a reparação da desigualdade e da injustiça histórica de que padece a imensa população negra do nosso país. Estaria a grande mídia mais preocupada com seus próprios interesses do que com o interesse público?

(*) Publicado originalmente no Observatório da Imprensa

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

TV Brasil: um direito do cidadão

A TV Brasil iniciou suas atividades em dezembro de 2007, cercada de polêmica. Era acusada de governista e desnecessária. No entanto, a emissora é aprovada pela maioria dos telespectadores como apontou recente pesquisa e se mostra como um contraponto aos canais comerciais por oferecer uma programação informativa, cultural, artística, educativa e formadora da cidadania.

Infelizmente, hoje a TV Brasil está disponível no canal aberto para as cidades de São Luís, Brasília e Rio de Janeiro. A emissora também pode ser conferida pelos donos de TV por assinatura ou que tenham parabólica em casa.

Mas para quem não tem nenhuma das opções acima, é possível captar a TV Brasil através do portal Terra, basta clicar aqui.

É verdade que muitas pessoas não gostam de assistir televisão pela internet, mas é uma alternativa para conhecer a emissora. A TV Brasil não pretende alcançar picos de audiência, mas funcionar como um instrumento de comunicação a serviço da sociedade brasileira, oferecendo uma programação de qualidade que respeita a diversidade de nosso povo.

domingo, 1 de novembro de 2009

Um herói genuinamente brasileiro

Depois de uma eficiente estratégia de divulgação na internet, Besouro chega aos cinemas causando grande furor. Misturando ação, romance e muita fantasia, o filme de estréia do João Daniel Tikhomiroff é ousado na tentativa de transformar um símbolo da resistência negra num herói da cultura pop, com direito a efeitos especiais ao estilo O Tigre e o Dragão.


A história se passa na década de 20 no Recôncavo Baiano. Naquele tempo pós-abolição, os negros continuavam sendo humilhados pelos senhores de engenho. Mestre Alípio, uma espécie de líder no povoado, é assassinado pelos capangas do Coronel Venâncio. Manoel Henrique Pereira, o Besouro, conduzido por Exu, decide vingar a morte de seu mentor e libertar o povo da opressão.


Além de muitas lutas e perseguições, o filme também apresenta um triângulo amoroso formado por Besouro (Ailton Carmo), Dinorah (Jessica Barbosa) e Quero-quero (Anderson Santos). Os três são amigos de infância que jogavam capoeira nas ruas de Santo Amaro da Purificação, mas a disputa pela linda garota acaba com a amizade dos dois rapazes e conduz a uma grande traição.


Besouro, baseado no livro Feijoada no Paraíso, de Marco Carvalho, mergulha fundo no misticismo das religiões afro-brasileiras, chegando a ser didático para explicar o universo dos orixás. O protagonista tem o "corpo fechado" contra os inimigos. O nome besouro tem origem na identificação do garoto Manoel com o inseto de cor preta que desafia as leis da Física e consegue voar, mesmo sendo pesado e com asas curtas.


O ator que vive Besouro tem uma atuação tímida para um protagonista, é verdade que os diálogos não ajudam. Além disso, o filme tem problemas de montagem, como na cena em que um personagem aparece sem nenhum arranhão depois de ter sido ferido. As narrações durante a história são desnecessárias. Com 35 anos de publicidade, o diretor João Daniel Tikhomiroff não consegue se livrar da linguagem “videocliptica” em sua estréia no cinema.


Apesar desses detalhes, Besouro merecia representar o Brasil na seleção para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Trata-se de um ótimo produto de exportação com cenários deslumbrantes, vigorosa trilha sonora e boas seqüências de ação. No entanto, o mais importante do longa é o resgate histórico de um mito e a valorização da capoeira como patrimônio cultural.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mídia comanda campanha contra cotas

Publicado na Afropress


Pesquisas feitas entre os anos de 2001 e 2009 apontam que o Jornal O Globo – da família Roberto Marinho e que tem como diretor da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, um dos líderes da campanha contra cotas – foi o jornal que mais publicou textos sobre as ações afirmativas – 46% deles contra e apenas 24% a favor. O mesmo Estudo aponta que a Revista Veja teve 100% de matérias contrárias às Ações Afirmativas.


O resultado do levantamento foi apresentado por João Feres, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), no Seminário “Comunicação e Ação Afirmativa: o papel da mídia no debate sobre igualdade racial”, promovido esta semana (14 e 15/10) pela Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, Comdedine, Cepir e Seppir, na Associação Brasileira de Imprensa. “A Veja escolheu um lado, o lado contra as cotas”, disse o pesquisador do IUPERJ.


A Veja e o apartheid: A revista é sócia do conglomerado de mídia que apoiou o regime racista do apartheid na África do Sul - o Grupo Naspers que, em novembro do ano passado passou a ser proprietário de 30% das ações do Grupo Abril, que edita a Revista. O negócio, estimado em US$ 422 milhões, foi o maior investimento feito pelo Grupo apoiador do apartheid no exterior. Apesar da família Civita, proprietária da Abril, permanecer no controle do Grupo Abril e da Veja, o Naspers passou a ter assento no Conselho de Administração.


O Grupo Naspers, fundado em 1.915, é uma multinacional que atua nos segmentos da mídia eletrônica e impressa. Com faturamento de US$ 2,2 bilhões, publica mais de 30 revistas e cerca de 25 jornais, dos quais o maior é o "Dayly Sun", na África do Sul. Atua em 50 países e tem negócios de Internet, TV paga e editora de livros. Foi uma das principais bases de sustentação do apartheid – regime racista sul africano – enquanto este vigorou no país.


Seminário: O evento teve mesas de debate com Muniz Sodré, Ancelmo Gois e Mírian Leitão do O Globo, o antropólogo e jornalista Kássio Motta, a diretora de redação da revista Cláudia Márcia Neder, Carlos Medeiros, da CEPIR, Rosângela Malachias do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e o próprio Feres do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ).


Mírian Leitão explicou que “o problema é quando a opinião sai do editorial ou artigo e vai para as matérias”, isto é, estas deixam de ser imparciais, o que acontece em vários veículos da grande imprensa. Entre as principais justificativas apresentadas pelas posições contrárias estão afirmações como a que as ações afirmativas não levam em conta o mérito, acirram o conflito racial e que não tem como dizer quem é negro no país. “Os brasileiros acreditam que discutir o racismo provoca racismo”, disse Carlos Medeiros da CEPIR. Mírian Leitão completou, “o que mais incomoda é escutar que o Brasil não é racista, pois isto impede o diálogo”.


Medeiros disse ainda que a ação afirmativa não deve se resumir a cotas e que este diálogo deve avançar. “As ações afirmativas não vão acabar com o racismo, mas vão promover igualdade de oportunidades”. Muniz Sodré acredita que por meio da aproximação o preconceito se torna menor. “É importante que o negro esteja em lugares onde barreiras históricas foram construídas, como é o caso das universidades”.


Identidade negra na mídia: Ao ser questionada sobre o fato da mulher negra ainda não se identificar e se enxergar nas páginas de uma revista como a Cláudia, Márcia Nader rebateu afirmando que quem diz isto não lê a revista.


“A mulher negra se vê sim na Cláudia, a Taís Araújo, por exemplo, já foi capa duas vezes”. Márcia defendeu a atitude “libertária” da revista, mas não soube dizer qual a média de matérias voltadas para este público, quantas capas de Cláudia já tiveram negras e nem o número de profissionais negros na redação. A jornalista reconheceu que a freqüência de negras retratadas na revista ainda é pouca, mas justificou dizendo que “a mídia é um reflexo da sociedade”.


Em contrapartida, Muniz Sodré foi um dos participantes que discordaram da afirmação e disse que a mídia cria o seu próprio público, construindo a realidade, não retratando-a. “E há uma imensa saudade da escravidão por parte da mídia brasileira”, acrescentou. Além disso, para reforçar a questão da identidade visual, o sociólogo disse que a relação de classe social, como muitos acreditam, não esgota a questão étnica. “O pobre branco já se encontra em vantagem, pois a cor se tornou objeto patrimonial”, concluiu.