quinta-feira, 5 de maio de 2011

Informação ou propaganda disfarçada?



Engraçado como alguns dogmas do jornalismo que são ensinados nas escolas de jornalismo são totalmente abandonados pelos grandes veículos de comunicação. Uma exigência ética que deveria nortear o trabalho dos jornalistas é a clara distinção entre informação e publicidade. Numa reportagem como essa do Jornal da Globo, veiculada na semana passada, seria realmente necessária a menção das marcas dos estabelecimentos de fast food?

A matéria além de citar as marcas, ainda informa o valor dos produtos em promoção e de quanto foi a queda nos preços. Um telespectador mais distraído certamente imaginaria que se trata de fato de uma propaganda. Na verdade, é publicidade disfarçada de jornalismo, com a vantagem de que o discurso da imprensa possui a credibilidade que o publicitário não tem. A omissão dos nomes das marcas não causaria nenhum prejuízo ao fundamental da matéria que é a redução dos preços e o acirramento entre os concorrentes.

Esse tipo de tabelinha jornalismo-publicidade também é fartamente utilizado no jornalismo impresso. Um exemplo recorrente é a publicação das notas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) em que há uma ampla divulgação das melhores escolas, com destaque para as particulares, em que o jornalista procura ressaltar o diferencial dessas unidades para obter um bom desempenho no exame. Em alguns casos, a cara de pau é tão gritante que a notícia está ao lado de um informe publicitário da própria escola mencionada no texto.

A divulgação de nomes de empresas ou produtos deve ocorrer somente em casos em que a menção é primordial para o entendimento da matéria, como a notícia de um acidente envolvendo uma companhia aérea ou o recall de um veículo. Parece que o jornalismo contemporâneo não tem essa preocupação ética em separar a redação do setor comercial. Quem sabe da próxima vez a matéria do Jornal da Globo também não divulga as formas de pagamento. 

5 comentários:

Ygor disse...

Post muito interessante! Mais uma vez vc chama a atenção para um fato importante do jornalismo. Concordo que as matérias jornalísticas não devem conter publicidade, mas na reportagem do jornal da Globo eles citaram todas as grandes redes... embora concorde q essa informação não fosse crucial para o entendimento da reportagem, não senti que alguma rede foi privilegiada

Felipe Lobo disse...

Curiosamente naquele caso quem que um homem negro foi espancado por ser acusado de furtar o próprio carro, o pouco o que apareceu na mídia, diziam que é "uma rede de hipermercado de Osasco". A empresa no caso, era o Carrefour,

Michel Carvalho disse...

Ao citar as grandes redes, a publicidade então é generalizada, mesmo não ressaltando nenhuma delas. Mas o pior é que no intervalo do jornal me surge um comercial da MacDonalds. Imagine o efeito disso para o consumidor, primeiro o discurso objetivo e de credibilidade do jornalismo, depois o apelo persuasivo da propaganda. Eu, particularmente, acho que a menção das marcas deve ocorrer em último caso, quando a omissão traria prejuízo à informação, o que não é o caso dessa matéria sobre a guerra entre os fast food

Paulo Cheng disse...

Ótimo ponto de vista, mas é algo que a mídia se utiliza de forma descarada e recorrente. Não se há mais ética nos meios de comunicação, o que for necessário para se alavancar mais ibope e audiência, é feito em nome da divulgação e a ética é relegada a segundo plano.

Ótimo blog, parabéns.

Ofensivo por Natureza disse...

Cara, não há mais ética em nada hoje em dia! São raras as pessoas que tem ética e educação como virtudes.