
Depois de assistir Garapa, documentário em preto e branco de José Padilha, decidi nunca mais usar a expressão “morrendo de fome” para exteriorizar que estou com muita vontade de comer. É lógico que essa atitude é insignificante diante dessa mazela social, mas seria um pecado continuar falando isso, sabendo que, segundo a ONU, mais de 900 milhões de pessoas ainda sofrem com a fome crônica no mundo.
O filme de Padilha provoca um mal-estar dilacerante que se transforma num sentimento de impotência. Garapa acompanha de perto a vida de três famílias cearenses que convivem com a miséria, a desesperança e a fome. A realidade nua e crua choca por mostrar seres humanos em situações tão degradantes, como a de uma criança cheia de feridas com moscas pousando por cima. Realmente, será difícil esquecer essas imagens.
À frente dessas famílias estão Rosa, Robertina e Lúcia, mulheres sofridas que são obrigadas a criar mecanismos de sobrevivência para seus filhos. As panelas vazias denunciam a falta de alimentos, o que resta é apenas a mistura de água e açúcar, a famosa garapa que simboliza a desnutrição. Esse retrato desolador é agravado pelo número de crianças em cada casa. Para se ter uma idéia, uma das mães tem onze.
Os homens, sem trabalho por causa da seca, acabam caindo no alcoolismo. Como se observa, um problema desencadeia uma série de outros. Muitos causados pela omissão do poder público. Entre as famílias retratadas no documentário, por exemplo, apenas uma era beneficiária do Bolsa Família. E por falar nisso, os críticos desse programa deveriam assistir Garapa para mudarem a idéia de que se trata apenas de esmola.
Depois do sucesso de Tropa de Elite, Padilha faz um filme engajado que divide o público. Muitos acreditam que o diretor exagerou ao expor as famílias e, principalmente, as crianças de uma maneira tão explícita. Outros garantem que esse olhar mais íntimo é necessário para denunciar a fome, um mal que envergonha qualquer um como ser humano.