quarta-feira, 7 de julho de 2010

Lições de uma Copa

A Copa do Mundo mexe com a emoção das pessoas, despertando paixão, ira, alegria e frustração. Todos esses sentimentos são captados pela mídia e superdimensionados. Uma partida de futebol se transforma numa batalha de gladiadores. Um gol não é simplesmente um gol, mas o tiro certeiro no adversário. Uma falha num jogo de quartas-de-final é como um crime cuja sentença é a execração pública sob os olhares de seus algozes, no caso, jornalistas e “especialistas” no assunto.

Como um megaevento midiático, a transmissão da Copa reúne elementos jornalísticos e de entretenimento. Para ser um espetáculo de grande audiência é preciso drama, comédia, suspense, heróis e vilões. O futebol em si não sustentaria horas e horas de transmissão, por isso, entra em cena o lado exótico do país anfitrião, a beleza das torcedoras, a família dos jogadores, a festa pelo mundo afora, vale tudo para segurar o telespectador diante da TV, mesmo sem a bola rolando.

O que mais se observou nesta Copa foi a irracionalidade de alguns jornalistas envolvidos na cobertura que agiram mais como torcedores fanáticos do que como profissionais de comunicação. Durante a chegada do ônibus da seleção holandesa ao estádio, José Luiz Datena da Band comentou que seria bom se o veículo batesse e que Robbin quebrasse a perna. O colega de emissora, Milton Neves, após a desclassificação brasileira, ameaçou o jogador Felipe Melo e sugeriu que ele não retornasse ao Brasil, promovendo uma verdadeira caça às bruxas.

Já a Rede Globo, sempre acostumada com entrevistas exclusivas e outras benesses, se viu contrariada com a postura de Dunga. Depois de um bate-boca com o repórter Alex Escobar, o técnico comprou uma briga contra um império, com direito a editorial no Fantástico repudiando sua conduta. Durante as transmissões dos jogos, tudo era motivo para criticá-lo. Quando então o Brasil perdeu para a Holanda, a vingança já estava preparada, Dunga, mesmo com seu retrospecto, foi responsabilizado pela derrota, sendo chamado de burro, destemperado e inexperiente para o cargo.

A falta de respeito com outras culturas também foi uma marca da mídia brasileira nesta Copa. Os estereótipos relacionados ao continente africano foram reforçados pela imprensa, a África do Sul foi retratada como a terra da vuvuzela, de rituais misteriosos, do safari e do ex-presidente Mandela. Essa abordagem reducionista e preconceituosa também pode ser vista na reportagem feita pela Sportv sobre o Paraguai, que ridicularizou a culinária do país, o fato de não contar com praias, sua moeda e até as músicas de uma cantora local.

Algumas partidas foram realmente emocionantes, mas o que mais impressionou durante a Copa foi o fenômeno CALA BOCA GALVAO que chegou ao trending topics do twitter. Apesar de ser uma brincadeira, essa manifestação mostra que o público não aprova os exageros de Galvão Bueno e todo seu maniqueísmo. O pior é que não tem para onde correr. Como disse alguém outro dia, o negócio é ligar a TV, colocar no mudo e escutar o jogo pelo rádio.

8 comentários:

airssea disse...

Hahaha, muito bom texto!
De verdade, se eu tivesse me lembrado do radinho, não teria me aborrecido tanto! Rsrs...

J P F O X disse...

Diga-se de passagem que sempre faço isso de ver na TV e escutar no radinho. É bem melhor!!!!!!! O seu comentário sobre a Copa é perfeito. Faltou você dizer sobre a briga religiosa de Kaká X Kfouri e a tão falada Jabulani. Outra coisa que me chamou atenção foi o fato de mostrarem as pessoas que moram em Soweto como seres terrestres. Só por viverem a margem e não terem chance, nem condições de irem ao Estádio, eram tratados como pautas cults. Muito bom o seu texto. Vou seguí-lo. Até mais...

Ana Paola disse...

Agora ao menos temos a opção da Band... =)

Michel Carvalho disse...

Obrigado por prestigiarem este espaço. JPFOX, vc observou bem sobre este olhar em relação a Soweto, aquela velha pauta de levar um pobre menino ao estádio pela primeira vez. A única matéria que gostei durante essa cobertura foi uma do Felipe Andreoli mostrando os resquícios do apartheid. De resto, sobrou frivolidades.

Abs

Ygor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ygor disse...

Apesar dos pesares essa cobertura toda foi boa pra conhecermos um pouco mais da África do Sul e toda sua cultura e principalmente as questões históricas recentes tipo o Apartheid.

O q mais me irritou nessa cobertura foi o apontamento de um único culpado pela desclassificação do Brasil, assim como em 2006 o Roberto Carlos foi responsabilizado, desta vez está sendo atribuída ao Felipe Melo uma responsabilidade q não é "só" dele. Isso é coisa cultural do Brasil, em vez de reconhecer o erro e trabalhar para consertar a falha, procura-se um único culpado para atribuir-lhe toda a culpa.

Quanto ao Datena... melhor nem comentar

PS: preferia o visual antigo do blog, em tons de vermelho... tinha mais a ver com a ideologia do blogueiro.

Sandro Batista disse...

Aonde eu assino???

Você simplesmente disse exatamente o que eu penso sobre o que aconteceu! Não podemos (generalizando), ficar frustrados com a eliminação, afinal de contas, nós já esperávamos por ela, torcíamos por ela, porque simplesmente esquecemos que estava em campo a seleção brasileira, e fomos mesquinhos, preferimos o fracasso do Dunga, mesmo que esse fracasso signficasse a frustração de um País inteiro! A crueldade não foi com o Dunga. Ele já ergueu aquela taça como capitão! A frustração, os derrotados, os "donos da verdade", fomos nós, pobres tolos e mortais comuns, que sabemos tudo de futebol, mas dificilmente chegaremos sequer perto de tudo que o Dunga e seus comandandos conquistaram...
O Brasil, sua torcida, sua imprensa, de forma geral, se portou de forma inferior. Se apequenou! Falamos que a seleção não tem amor à camisa. E nós, temos amor à camisa, ou a nomes? Não torço por jogadores, por seus nomes... EU sou Brasileiro, quero ver o triunfo do meu País, porque na hora do hino, não falamos a palavra Dunga, nem o nome dos jogadores... E a bandeira que fica mais alta, não tem o rosto de ninguém estampado. Tem simplesmente nosso orgulho. Todos foram excessivamente soberbos nessa copa, inclusive nós, torcedores, e nossa mania de achar que sabemos tudo! A vaga de técnico está aberta, e qualquer um de nós, ou da imprensa, já pode começar a enviar currículos! No circo que isso se tornou, sempre haverá espaço para mais um palhaço. Ou para quase 200 milhões deles!

Abração

http://estacaoprimeiradosamba.blogspot.com/

Daniel Silva disse...

eu não queria e ainda não quero a copa no brasil, por toda a robalheira que vai ser e o gasto do dinheiro público pra fazer estádios e outras coisas. qual vai ser o legado da copa pra áfrica? será que vai melhorar mesmo o país deles? não sei.

abrao