sábado, 6 de novembro de 2010

Um retorno nada feliz



Ficar quinze anos sem filmar parece ter feito mal a Arnaldo Jabor. A Suprema Felicidade marca sua reestreia e o que poderia ser uma volta triunfal, se transforma numa história anódina, feita de raros bons momentos. O diretor faz um mergulho nostálgico na cidade do Rio de Janeiro das décadas de 40 e 50, narrando as experiências de Paulo, um garoto em busca dessa tal felicidade.

A trama começa depois do fim da guerra. Paulo é filho de Marco (Dan Stulbach), aviador da FAB, e Sofia (Mariana Lima), uma mulher à frente de seu tempo. O garoto testemunha o fracasso do pai em realizar o sonho de pilotar um jato e a tristeza da mãe pela distância do marido. Tudo isso mexe com Paulo, que encontra refúgio na cumplicidade do avô Noel (Marco Nanini), boêmio e um grande contador de histórias.

Paulo e seu melhor amigo, Cabeção (César Cardadeiro), começam a descobrir o mundo além dos muros da escola e do quintal de casa. O primeiro porre, as noitadas nos cabarés e as frustrações amorosas. São situações intensas, mas que não significam a felicidade que Paulo tanto busca. Ele então conhece Marilyn (Tammy Di Calafiori), uma jovem dançarina, pela qual se apaixona loucamente.

A Suprema Felicidade é um longa repleto de referências, como os musicais de outros épocas. No entanto, a tentativa é constrangedora de tão ruim. A atuação do protagonista também decepciona. Jayme Matarazzo, que vive Paulo com 18 anos, não emplaca, falta carisma e expressão. Os melhores momentos ficam com Marco Nanini que se diverte com os devaneios de seu personagem. Outra atração é João Miguel que encarna o pipoqueiro Bené, um sujeito engraçado que conta suas aventuras com as mulheres.

Se como cronista, Arnaldo Jabor desperta mais ódio do que admiração, como diretor de cinema, ele é muito respeitado. Por exemplo, Eu Sei Que Vou Te Amar é uma obra-prima. Mas em A Suprema Felicidade, o cineasta opta por uma história arrastada que não empolga o público e cheia de anticlímax. De feliz, o filme só tem o saudosismo. Será que Jabor ficou enferrujado depois desse longo jejum? 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Lições de uma eleição


“Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!” Esse comentário foi postado no twitter um dia depois da consagração de Dilma Rousseff (PT) nas urnas. A frase demonstra o radicalismo que dominou as eleições deste ano. A campanha foi marcada por táticas clandestinas que envolveram desde o terrorismo religioso até o preconceito de gênero passando por uma cobertura partidarizada da mídia. A vitória da candidata petista ensina que o povo brasileiro  está cada vez mais pragmático, votando de acordo com sua vontade e não se deixando tutelar pelo posicionamento dos “formadores de opinião”.

Muitos desses eleitores que ficaram indignados com a vitória de Dilma Rousseff atribuíram aos nordestinos o peso decisivo no resultado do segundo turno. No entanto, os votos do Nordeste apenas aumentaram a vantagem que a petista obteve no restante do Brasil. Considerando apenas Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste, a ex-ministra somou 1.873.507 votos a mais do que o tucano José Serra. Nessa análise precipitada e inverossímil reside o preconceito arcaico que não admite que o voto do “intelectual” paulista tenha o mesmo valor da bordadeira cearense.

As eleições deste ano conseguiram a façanha de unir conservadores religiosos, jovens despolitizados e a elite separatista. A articulação desses setores e da coordenação do PSDB foi responsável por uma campanha difamatória contra Dilma sem precedentes na história política brasileira. A rede de boatos funcionou em bloco, enviando correntes de e-mails e repercutindo-os nas redes sociais, fora a distribuição de panfletos apócrifos, como os produzidos a mando do bispo de Guarulhos. José Serra (PSDB) se transformou no candidato classista, ou seja, aquele que melhor representava os grupos arrivistas e reacionários.

Dilma teve mais de 55 milhões de votos e entrou para a história como a primeira mulher presidente do Brasil. Mas sua eleição não foi nada fácil, principalmente pelo partidarismo de alguns meios de comunicação. Ainda ano passado, o jornal da Folha de S. Paulo publicou uma ficha falsa do DOPS em que a ex-ministra da Casa Civil era tia como uma terrorista perigosa que planejava seqüestros. O Estado de S.Paulo declarou em editorial que apoiava o candidato tucano. A revista Veja se transformou num braço da campanha de oposição e de forma escancarada requentava denúncias contra Dilma e o PT. No caso da bolinha de papel, o Jornal Nacional dedicou mais de dez minutos para tentar comprovar que Serra foi atingido por uma fita adesiva, com direito até a análise do perito Molina.

O debate sobre questões importantes para o país foi esvaziado, e o eleitor saiu perdendo. As reformas tributária, previdenciária, política e trabalhista passaram longe da pauta dos candidatos que preferiram o denuncismo e a tática do revide. Se Dilma tinha Erenice, a pedra no sapato de Serra era Paulo Preto. Os casos só contribuíram para nivelar os dois presidenciáveis. Os profissionais do marketing novamente tentaram construir o modelo de político padrão: humilde, religioso e de moral ilibada. As marcas pessoais foram diluídas pouco a pouco, prevalecendo ações previamente arquitetadas, como a visita de ambos à Aparecida.

Mas um fato novo que surpreendeu nestas eleições foi a militância virtual. Se no primeiro turno, a onda verde de Marina Silva ganhou corpo, no segundo turno tucanos e petistas travaram um verdadeiro duelo no twitter. A grande disputa era para emplacar uma #tag nos trending topics. Os blogs também mostraram força por desempenharam o papel de contrafala no sentido de apresentar múltiplas vozes sobre os assuntos pautados pela campanha como o aborto e as privatizações. E com a expansão da internet em todo o país, todo mundo se tornou um pouco ativista, seja da lan-house ou do computador pessoal.

O único problema é que certos usuários acreditam que a rede é um espaço sem regras, em que o ódio pode ser disseminado, como a estudante “classista” que postou o comentário preconceituoso contra os nordestinos. A eleitora de Serra deverá responder judicialmente por racismo e incitação pública de prática de crime. Na verdade, democracia não exige unanimidade, mas respeito à maioria, e no caso, a maior parte do povo brasileiro optou por Dilma Rousseff.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Como esquecer: perdas que aproximam







O que fazer para superar a perda de um grande amor? Como esquecer, de Malu de Martino (Mulheres do Brasil) conta como essa busca pode ser dolorosa. Júlia (Ana Paula Arosio) é uma professora de literatura inglesa que luta para reconstruir sua vida após uma relação intensa com Antônia. Um drama contemporâneo que aborda temas que vão além da caricatura associada a homossexuais.

Deprimida e em meio a uma série de conflitos internos, Julia se isola do mundo, mas seu amigo Hugo (Murilo Rosa) tenta trazê-la para o convívio social. A perda é um traço que os une, e os dois vão morar juntos com Lisa (Natália Lage), uma jovem que também vive uma situação complicada. A professora viverá um experiência transformadora, dividindo tristezas, felicidades, tentando superar os traumas do passado e voltar a sorrir.

Ana Paula Arósio é uma verdadeira atriz dramática e, em Como esquecer, isso é comprovado. A dor de Julia parece incomensurável, ganhando contornos shakespearianos de tão carregada. Ela vive essa fossa com tanta intensidade que, às vezes, irrita. Talvez, a diretora tenha errado na dose. Mas quem pode julgar a perda do outro?

Adaptação da história autobiográfica de Miriam Campello, Como esquecer não pode ser reduzido a filme de temática GLS, como alguns sites citaram. Até porque a homossexualidade é uma questão secundária na história. Sem estereótipos, o longa de Malu de Martino fala de pessoas comuns que enfrentam um dos maiores dilemas da vida: a perda de alguém muito importante.

Como esquecer ainda conta Arieta Corrêa como a sedutora Helena, prima de Lisa, e Bianca Comparato vivendo Carmem Lygia, uma aluna de Julia que tenta ser íntima da professora.





segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Tropa 2: Uma tese simples, mas um filmaço


Sem dúvida, Tropa de Elite 2, de José Padilha, era o filme mais esperado do ano. Motivos não faltavam – da pirataria, passando pela acusação de fascista, até a consagração no Festival de Berlim. Será que Capitão Nascimento e seus ‘caveiras’ continuariam a ‘soltar o dedo’ e colocar os malandros no saco?  Se o primeiro não tinha a pretensão de ser um fenômeno, a sequência foi produzida para se tornar o maior sucesso do cinema brasileiro, desde a Retomada. Perfeito tecnicamente, Tropa de Elite 2 vai agradar a maioria, com ação do começo ao fim, com doses simplificadas de reflexão.

Capitão Nascimento (Wagner Moura), quinze anos mais velho, passa a ser comandante geral do BOPE e depois sub-secretário de inteligência. Ao fazer parte da cúpula da segurança pública do Rio de Janeiro, ele descobre, como o próprio subtítulo do filme diz, que "o inimigo agora é outro". No vácuo dos traficantes, policiais milicianos começam a tomar conta das comunidades, cobrando propina por serviços como “gatonet” e entrega de gás. A espinha dorsal do esquema inclui figuras da política, como deputados, secretários estaduais e até mesmo o governador.

Apesar de o filme alertar no começo que se trata de uma obra ficcional, a história é bem verossímil, com elementos que remetem a alguns fatos recentes da realidade. O deputado de esquerda, que defende os direitos humanos e quer abrir um CPI para investigar a polícia. A jornalista que arrisca a própria vida para conseguir provas contra os acusados. O apresentador sensacionalista de um programa policial que enaltece a ação do BOPE para obter mais audiência. Todos esses personagens mais o próprio Nascimento dão um ar de “baseado em fatos reais”, a estratégia cativa o público e confere veracidade.

Nesta sequência, Nascimento além de combater o sistema, precisa conviver com o distanciamento de seu filho. Para piorar, o padrasto do garoto é um de seus grandes desafetos. O comandante do BOPE se mostra mais humano em Tropa 2, apesar de seu jeito durão. O ‘herói’ é um cara sozinho, cheio de conflitos, que já não sabe porque aperta o gatilho. Wagner Moura está espetacular na pele desse ser tão complexo. Sua interpretação é um dos destaques do filme. Outras atuações marcantes são de Iradhir Santos, como o deputado Fraga, e Sandro Rosa como o policial miliciano Rocha.

Tropa 2 também salta aos olhos por seu resultado na telona. Cenas alucinantes que lembram os melhores filmes de ação norte-americanos. Fotografia e edição perfeitas. O roteiro, assinado por Braulio Mantovani, é bem construído e ajuda a dar ritmo a história. O único problema nesse sentido são algumas passagens, que poderiam ser excluídas na montagem, como a dos policiais milicianos numa lancha e a do governador reclamando do material de campanha.

Talvez o que mais incomode em Tropa 2 seja seu fatalismo. A narração do Capitão Nascimento não permite ao público outra conclusão que não esta: os políticos são os grandes culpados e o povo que os elegem é cúmplice. Uma tese que fica na superficialidade, mesmo quando tenta mostrar o embate entre esquerda e a direita em termos de discurso no combate à violência. Mas nada disso parece preocupar Padilha, que deseja simplesmente mostrar a barbárie em que a sociedade vive.  Com simplificações sociológicas ou não, o longa cumpre seu papel ao tocar em questões importantes. Além disso, muitos espectadores querem ver mesmo o Capitão Nascimento esculachando os criminosos e repetindo um de seus bordões, como “pede para sair”.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Memórias, encenações e um personagem singular

Pedro de Almeida, garimpeiro de 81 anos de idade, comanda como mestre de cerimônias o velório, o cortejo fúnebre e o enterro de João Batista, que morreu com 120 anos. O ritual sucede-se no quilombo Quartel do Indaiá, distrito de Diamantina, Minas Gerais. 

Com uma canequinha esmaltada, ele joga as últimas gotas de cachaça sobre o cadáver já assentado na cova: “O que você queria taí! Nós não bebeu ela não, a sua taí. Vai e não volta pra me atentar por causa disso não. Faz sua viagem em paz”.

Dessa maneira acaba o sepultamento de João Batista, após 17 horas de velório, choro, riso, farra, reza, silêncios, tristeza. No cortejo, muita cantoria com os versos dos vissungos, tradição herdada da áfrica. Descendente de escravos que trabalhavam na extração de diamantes, nas Minas Gerais do tempo do Brasil Império, Pedro é um dos últimos conhecedores dos vissungos, as cantigas em dialeto banguela cantadas durante os rituais fúnebres da região, que eram muito comuns nos séculos 18 e 19.

Garimpeiro de muita sorte, Pedro já encontrou diamantes de tesouros enterrados pelos antigos escravos, na região de Diamantina. Mas, o primeiro diamante que encontrou, há 70 anos, o tio com quem trabalhava o enterrou e morreu sem dizer onde. Depois disso, vive sempre em uma sinuca: para reencontrar o diamante só se invocar a alma de seu tio João dos Santos. “É um diamante e tanto, você precisa ver que botão de mágoa”. Ao conduzir o funeral de João Batista, Pedro desfia histórias carregadas de poesia e significados metafísicos, que nos põem em dúvida o tempo inteiro: João Batista tinha pacto com o Diabo?; O Diabo existe?; estamos sozinhos, ou as almas também estão entre nós?; como Deus inventou a Morte?

A atuação de Pedro e seus familiares frente à câmera nos provoca pela sua dramaturgia espontânea, uma auto-mise-en-scène instigante. No filme, não se sabe o que é fato e o que é representação, o que é verdade e o que é um conto, documentário ou ficção, o que é cinema e o que é vida, o que é africano e o que é mineiro, brasileiro.

O que diz o diretor:
“Na virada de 2004 para 2005, estava enredado pelo livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Famoso por atrair ao sertão de Minas Gerais gente de todo o mundo, o livro fez com que eu e minha mulher imprimíssemos uma viagem em busca do sertão mítico e profundo retratados pelo escritor.

No caminho, encontrei Pedro Vieira, conhecido como Pedro de Alexina, guardião das tradições fúnebres que os africanos trouxeram para a região de Diamantina no século 18. Esse encontro transformou minha viagem em uma expedição ao imaginário da tradição oral que remonta aos povos andantes. Essas histórias emendam-se umas nas outras, misturando os contos populares ao mundo vivido e a uma miríade de mitos de diferentes origens.

Dois anos depois, em maio de 2007, voltei ao Quartel do Indaiá, comunidade remanescente de quilombo, para fazer um filme com seu Pedro. Foram 30 dias de filmagens. Mediado pela imaginação, pela memória dos antepassados e de suas histórias, Pedro me levou a um lugar onde o sertão encontra a África de séculos atrás, onde a morte encontra a vida e onde Deus e o “Outro” coexistem”.

Em tempo: Conferi Terra deu Terra come no sábado e não tive inspiração suficiente para escrever algo à altura da magnitude desse filme instigante. Mas reproduzo aqui o release, divulgado no site oficial do longa e o depoimento do diretor Rodrigo Siqueira.

Em exibição no Espaço Unibanco Miramar 18h