quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Lições de uma eleição


“Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!” Esse comentário foi postado no twitter um dia depois da consagração de Dilma Rousseff (PT) nas urnas. A frase demonstra o radicalismo que dominou as eleições deste ano. A campanha foi marcada por táticas clandestinas que envolveram desde o terrorismo religioso até o preconceito de gênero passando por uma cobertura partidarizada da mídia. A vitória da candidata petista ensina que o povo brasileiro  está cada vez mais pragmático, votando de acordo com sua vontade e não se deixando tutelar pelo posicionamento dos “formadores de opinião”.

Muitos desses eleitores que ficaram indignados com a vitória de Dilma Rousseff atribuíram aos nordestinos o peso decisivo no resultado do segundo turno. No entanto, os votos do Nordeste apenas aumentaram a vantagem que a petista obteve no restante do Brasil. Considerando apenas Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste, a ex-ministra somou 1.873.507 votos a mais do que o tucano José Serra. Nessa análise precipitada e inverossímil reside o preconceito arcaico que não admite que o voto do “intelectual” paulista tenha o mesmo valor da bordadeira cearense.

As eleições deste ano conseguiram a façanha de unir conservadores religiosos, jovens despolitizados e a elite separatista. A articulação desses setores e da coordenação do PSDB foi responsável por uma campanha difamatória contra Dilma sem precedentes na história política brasileira. A rede de boatos funcionou em bloco, enviando correntes de e-mails e repercutindo-os nas redes sociais, fora a distribuição de panfletos apócrifos, como os produzidos a mando do bispo de Guarulhos. José Serra (PSDB) se transformou no candidato classista, ou seja, aquele que melhor representava os grupos arrivistas e reacionários.

Dilma teve mais de 55 milhões de votos e entrou para a história como a primeira mulher presidente do Brasil. Mas sua eleição não foi nada fácil, principalmente pelo partidarismo de alguns meios de comunicação. Ainda ano passado, o jornal da Folha de S. Paulo publicou uma ficha falsa do DOPS em que a ex-ministra da Casa Civil era tia como uma terrorista perigosa que planejava seqüestros. O Estado de S.Paulo declarou em editorial que apoiava o candidato tucano. A revista Veja se transformou num braço da campanha de oposição e de forma escancarada requentava denúncias contra Dilma e o PT. No caso da bolinha de papel, o Jornal Nacional dedicou mais de dez minutos para tentar comprovar que Serra foi atingido por uma fita adesiva, com direito até a análise do perito Molina.

O debate sobre questões importantes para o país foi esvaziado, e o eleitor saiu perdendo. As reformas tributária, previdenciária, política e trabalhista passaram longe da pauta dos candidatos que preferiram o denuncismo e a tática do revide. Se Dilma tinha Erenice, a pedra no sapato de Serra era Paulo Preto. Os casos só contribuíram para nivelar os dois presidenciáveis. Os profissionais do marketing novamente tentaram construir o modelo de político padrão: humilde, religioso e de moral ilibada. As marcas pessoais foram diluídas pouco a pouco, prevalecendo ações previamente arquitetadas, como a visita de ambos à Aparecida.

Mas um fato novo que surpreendeu nestas eleições foi a militância virtual. Se no primeiro turno, a onda verde de Marina Silva ganhou corpo, no segundo turno tucanos e petistas travaram um verdadeiro duelo no twitter. A grande disputa era para emplacar uma #tag nos trending topics. Os blogs também mostraram força por desempenharam o papel de contrafala no sentido de apresentar múltiplas vozes sobre os assuntos pautados pela campanha como o aborto e as privatizações. E com a expansão da internet em todo o país, todo mundo se tornou um pouco ativista, seja da lan-house ou do computador pessoal.

O único problema é que certos usuários acreditam que a rede é um espaço sem regras, em que o ódio pode ser disseminado, como a estudante “classista” que postou o comentário preconceituoso contra os nordestinos. A eleitora de Serra deverá responder judicialmente por racismo e incitação pública de prática de crime. Na verdade, democracia não exige unanimidade, mas respeito à maioria, e no caso, a maior parte do povo brasileiro optou por Dilma Rousseff.

11 comentários:

Ravi Barros disse...

Política é um verdadeiro nojo! mas um mal necessário... concordo que a mídia tentou nessa eleição (assim como em todas as outras) manipular o voto do cidadão. Me perdoe se estiver errada, mas achei o post um tantp parcial...

Guilherme Póvoas disse...

Ficamos à beira da insanidade com tudo isso. Mas afastar bons cidadãos da política é deixá-la para aqueles que - sem nada mais - querem apenas faturar.

Michel Carvalho disse...

Ravi,

O texto é apenas uma visão, mesmo que fragmentada, daquilo que ocorreu durante o período eleitoral. Creio que muitos não concordem, mas acho que vale à pena a discurssão.

Valeu pelo comentário.

Abs!

André Henrique disse...

Nesta eleição, a Dilma sofreu muitos ataques, inclusive da sua vida pessoal.
Falaram que ela era lésbica,tinha caso com o Lula, assassina, assaltante de banco entre outros.
Falaram até que o Michel Temer,o seu vice era satanista e que a Marta era lésbica e dormia com mulheres.
Esse terrorismo religioso foi a marca desta eleição; em vez de falarem sobre como melhorar a saúde,educação,segurança,saneamento básico e outras coisas mais,utilizaram de temas como o aborto,a homossexualidade para fazer ataques contra a Dilma,tudo isto num país laico.
E falar também que as pessoas utilizaram até a Internet pra promover esta baixaria fazendo vídeos no YouTube,recados em blogs e no Twitter.
Depois que a Dilma ganha,vem uma sem vergonha e filhinha de papai,que quer ser advogada entrar na Web divulgar preconceito e a violência contra os nordestinos.Uma pessoa que escreve estes comentários leva outra junto com ela.Como uma pessoa que quer ser advogada escreve besteiras na Internet?Ela vai defender quem?

André Henrique disse...

O Jornal da Record de ontem noticiou este fato. A reportagem está no link abaixo :

http://noticias.r7.com/videos/pf-investiga-estudante-que-usou-a-internet-para-divulgar-o-preconceito-contra-nordestinos/idmedia/54ca84b6381df7c188e77937b1a290e9.html

Guilherme Lombardi disse...

A maior lição que aprendi nessa eleição foi seja um candidato logo de cara mesmo não tendo concorrido a nenhum cargo eletivo...pois não haverá regeição com o candidato.

Anônimo disse...

un..na verdade a net foi realmente importante, pois com ela pude contestar fatos tidos com únicas verdades q a imprensa destaca, portanto como citado acho que a sociedade pode ser mais ativista e reviver bons momentos de uma política onde quem ataca tem q provar e todo fato deve ser cosntestado até q se prove o contrário

Roberto de Melo

Renato Melo disse...

Belo texto Michel, isto prova que muitos brasileiros não sabem utilizar a rede social quando o assunto é provocação e indignação, até porque muitas vezes o sujeito está de cabeça quente... Não temos que culpar A ou B, o Brasil é um país democrático e temos que, mesmo a contra gosto, apoiar o presidente... Mas também é necessário fiscalizar o governo de forma IMPARCIAL, expondo os problemas, a corrupção e também o avanço do Brasil em alguns segmentos. Em tese, não torço contra Dilma, mesmo querendo Marina no poder... Mas o petista tem que enxergar que o PT não é mais um partido de esquerda faz tempo e que flerta demais com o capitalismo e com a alta quantidade de impostos, erro este que foi repetido por Sarney, Collor, FHC e Lula...

Vamos lutar por um Brasil mais justo e coerente e não colocar Dilma em um altar e a colocar como vítima... Lógico que a maioria da imprensa foi contra, mas transformar Dilma em vítima é o mesmo que fechar os olhos para sua campanha, para os panfletos anti-serra distribuidos em SP, jingles falando mal... Enfim, nas eleições Dilma foi um pouco Serra e Serra foi um pouco Dilma...

Michel Carvalho disse...

Renato,

Valeu pelo comentário...Concordo que é dever de todos nós - fiscalizar o governo e o Congresso. Talvez com essa eleição, a população fique mais atenta ao que acontece no Brasil e não só durante o período eleitoral. Agora é inegável que o teor da campanha foi muito mais rasteiro. Uma coisa é vc acusar um candidato de privatista, outra bem diferente é chamá-la lésbica, terrorista e abortista. Mas concordo que ninguém é santo(a). Infelizmente, o que faltou foi um debate mais profundo sobre as questões importantes do país.

Abs!

francisco alves disse...

É a primeira vêz que visito sua página. Concordo com um comentário acima que qualificou seu comentário de parcial. A vontade da maioria deverá ser respeitada, foi eleito, eleito está. Acredito que qualquer pessoa indicada pelo Presidente Lula, teria uma otima chance de ser eleita. Sabe-se que o candidato preferido do atual presidente seria Antonio Palocci, que deu um tiro no própio pé, por achar-se mais real que o rei. Jose Serra é um bom candidato cercado por péssimos amigos. Dilma, que seja Abençoada por Deus e muito boa sorte à ela.

Anônimo disse...

Não entendo o que muitos comentaristas do blog querem dizer com "parcialidade". Não existe imparcialidade. Ou você é a favor ou contra um ou outro candidato, na atitude que acho mais correta ou você é contra ou a favor de um projeto. Outra coisa é analisar os fatos de maneira correta, baseado em fatos e não em boatos e suposições. Critica-se a Dilma sem precisar em que aspecto ela é ruim. Experiencia administrativa? Ela foi uma ótima secretária de energia em Porto Alegre e desempenhou muito bem todos os cargos a ela atribuídos no governo Lula. Tem um passado digno de respeito. O PT não é um partido santo? Não, nenhum é. Já porque, infelizmente, não há uma seleção criteriosa, rígida quanto a ideologia, postura pessoal e política. Marina é santa? Nem de longe. Sempre soube como era o PT, militou no partido anos a fio. Sai atirando, como a HH e outros,
e ainda tem a cara-de-pau, como eles, de levar o mandato, que é do PT, com ela. Entra para um partido totalmente alinhado com a direita, salvo honrosas exceções de alguns mebmros, e cujo programa contem cláusulas que ela condena por ser evangélica. Os próprios líderes do partido fazem a campanha do Serra em vez da dela e ela acha tudo normal. O projeto de país fica ameaçado em função da campanha rasteira da mídia, do Serra e de religiosos, evangélicos como ela, e na hora H ela fica em cima do muro.
Mas ganhamos a batalha, o PT cresceu, com todos os seus problemas é o mais apreciado do país e o Lula considerado pela maioria do povo e pelo mundo afora, o maior presidente de nossa História. E não vai deixar que acabem com o maior programa educacional do mundo, o ENEM.
Amei o Blog, que acessei através de um comentário no Rodrigo Viana e já estou divulgando.
Abraços da Lia Vinhas.