sexta-feira, 8 de abril de 2011

O olhar infame da mídia


Imagino que o jornalista responsável por esta manchete do jornal A Tribuna tenha tido a intenção de ser criativo ou, pelo menos, fugir do lugar comum. Mas, sem a devida reflexão, acabou produzindo um título, no mínimo, controverso. A tragédia em Realengo, na Zona Oeste do Rio, causou uma tremenda comoção na sociedade brasileira, principalmente por envolver crianças. O episódio em si já é doloroso e revoltante demais, por isso mesmo, não precisa ser espetacularizado, ganhando contornos ficcionais e dramáticos. Numa situação como essa, a cobertura deve ser o mais equilibrada possível, respeitando o sofrimento dos familiares das vítimas e da população em geral. 

Em toda tragédia, a mídia adota uma postura reativa, promovendo uma verdadeira caça às bruxas. No caso da menina Isabela Nardoni, alguns formadores de opinião clamaram pela pena de morte. Quando o menino João Hélio foi morto brutalmente por um adolescente, alguns setores da imprensa exigiram a diminuição da idade penal. Agora, doze crianças foram assassinadas por um jovem transtornado. Jornais, TVs, sites e rádios questionam dessa vez a segurança nas escolas públicas, o comércio ilegal de armas, enfim, tudo o que pode ser considerado como o grande responsável por essa tragédia. O grande problema é que  depois de algumas semanas o debate desaparece da ordem do dia. A preocupação real da mídia dura o tempo em que o assunto rende notícia.


A morte de doze crianças durante a aula causa desconforto, um sentimento de impotência como um nó na garganta. Como o assunto aqui é a mídia, fica a pergunta: Como os meios de comunicação podem contribuir para evitar novas tragédias? Creio que tudo começa com uma grande mobilização em favor da tolerância e da solidariedade. A mesma mídia que potencializa atos de violência pode amplificar uma cultura de paz no país. Bons exemplos não estão no horário nobre das TVs nem nas manchetes de jornais, pelo contrário, o que se vê atualmente é a exposição de uma série de ações contra a dignidade humana.


Pela centralidade que ocupa em nossas vidas, a mídia deveria ser o lugar privilegiado para os grandes debates. Em vez de reativos, os veículos de comunicação poderiam ser propositivos de modo a promoverem uma mentalidade de corresponsabilidade na população. Todos somos culpados de alguma maneira pelas tragédias que se sucedem. Talvez nosso maior erro seja nosso olhar de indiferença sobre o próximo. Olhar que é incapaz de perceber a dor alheia. Na realidade, trata-se de um olhar infame, como geralmente é o da imprensa brasileira.

6 comentários:

Carol Robortella disse...

A questão é que não se pensa em quem está vendo a notícia como um ser humano, e sim como um bom mercado comprador.

http://soudonodaminhavoz.blogspot.com/2011/04/sobre-cobertura-de-realengo_07.html

Carol Robortella disse...

Linkei seu blog lá :)

Michel Carvalho disse...

Valeu Carol e concordo com sua observação a respeito da desumaninação que impera em nossa imprensa.

Filipe Dias disse...

Nossa, realmente o cara não foi feliz, mesmo que tenha tido as melhores intençoes..

Anônimo disse...

é por essas e outras coisas lamentáveis que o brasil é o que é hoje.

Flávio disse...

Essa capa da Tribuna não entraria nem no Expresso.
Lamentável.