sexta-feira, 1 de abril de 2011

A liberdade de expressão como desculpa


O assunto da semana foi a polêmica entrevista do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) no quadro O Povo Quer Saber do programa CQC (Band). O parlamentar, de extrema direita, elogiou a ditadura, desqualificou os estudantes cotistas, incentivou a violência contra homossexuais e associou promiscuidade à mulher negra. Bolsonaro representa a velha elite conservadora de nosso país. Um setor da sociedade que não respeita os direitos humanos nem a diversidade que caracteriza nosso povo. Por possuir imunidade parlamentar, o deputado não demonstra receio em propagar ideias racistas e discriminatórias.


Mas nesse episódio o maior desrespeito partiu da direção do CQC. A equipe do programa na hora da edição poderia ter refletido se a entrevista deveria realmente ir ao ar. O comentário feito pelo apresentador (Marcelo Tas) depois da fala do deputado é, no mínimo, cínico. Ele tinha conhecimento do conteúdo a ser veiculado e sabia da reação que poderia causar. Muitos defendem que o programa apenas respeitou o princípio da liberdade de expressão. No entanto, esse direito não pode estar em descompasso com a Constituição Federal. No caso, Bolsonaro utilizou um meio de comunicação para cometer o crime de apologia ao racismo, já que homofobia ainda não é tipificado como tal. 


É bom ressaltar que a Band não é proprietária do canal em que opera, mas, na verdade, uma concessionária do serviço público federal de radiofusão. Assim, está irremediavelmente sujeita às normas que regulam o setor. O CQC pode até alegar que exibiu a entrevista para levantar o debate sobre o assunto, porém todos sabemos que o interesse que norteia a TV comercial é a audiência. A polêmica entrevista rendeu a esperada repercussão ao programa, que deve voltar a explorar o caso na próxima semana.


Quando a liberdade de expressão é usada como desculpa para a humilhação demonstra o quanto precisamos amadurecer como democracia. O racismo ainda é aceitável em nosso país, apesar de ser crime, basta ver os comentários feitos por alguns internautas nas mídias sociais e nos portais de notícias. O racista ainda não causa a mesma repulsa que, por exemplo, o pedófilo. Creio que nunca seria veiculada a entrevista de um defensor da pedofilia. Por isso, nem tudo merece ser levado ao ar pelos meios de comunicação. Isso não se trata de censura, mas de apreço aos direitos humanos. 

15 comentários:

Carol Robortella disse...

O interesse é SEMPRE a audiência, ainda mais em um programa como este. É engraçado que quando interessa eles fazem até campanha eleitoral, não importa pra qual partido. Na época das eleições isso ficou bem claro.

Isso mostra que a mídia em nosso país realmente não entende nada de direitos humanos. Pior, não quer entender. Não interessa mesmo.

Rubi disse...

Sem dúvidas é um tema bastante polêmico e interessante. A mídia insiste em usar de seu poder para coisas que convém a eles.

Daniel disse...

Entendo sua colocação, mas, como homossexual, acho que esse tipo de opinião partindo de uma figura pública e democraticamente eleita pelo povo deve, sim, ser veiculada. Escancara o retrocesso e o desrespeito desse infeliz aos direitos humanos, além de mostrar o quanto precisamos, ainda, de legislação contra esse tipo de violência aos homossexuais. E se ele for reeleito, aí o maior problema é o povo, e não somente este ser retrógrado. Esta segunda opção é muito mais provável, visto que um governo e o retrato da legião de governados.

Matheus Pegoraro disse...

Quem que com a mídia fere, com mídia será ferido, e assim por diante, resta saber como será a interpretação de quem vos assiste, isso é realmente o que preocupa, pois racistas, homofóbicos e adeptos da violência infelizmente ainda são comuns em nosso país.

Creio eu que essas "guerrinhas" de midia seriam o menor dos nossos problemas.

Cristiano disse...

Tudo bem que o Bolsonaro é a cara do coronel Frank Fitts do filme Beleza Americana, e que os dois filhos dele tem grandes probabilidades de morder a fronha, mas racismo não... Ele se enganou ali...Queria ser homofóbico, mas não racista...Não que isso seja legal, mas não foram as duas coisas...

Anônimo disse...

O que quase ninguém comentou foi a resposta do Marcelo Tas: Espero que o deputado tenha se confundido ao afirmar que seria promiscuidade seu filho casar com uma pessoa DE COR!!! Só o Bolsonaro é racista? Acho que não!

Matheus Pegoraro disse...

Alerta ao Sr. Anônimo......
(Marcelo Tas) - “ Eu prefiro acreditar que o Bolsonaro não tenha entendido a pergunta da nossa querida Preta Gil, ele se referiu a “promiscuidade” se o filho se apaixonar-se por uma pessoa de cor.”

cada coisa em seu lugar, o foco não seria esse, e sim as infelizes colocações do Sr. Bolsonaro, contra a maneira de uso da liberdade de expressão, utilizada pelo CQC.

Michel Carvalho disse...

Concordo com o Anônimo no racismo velado contido na expressão "pessoa de cor" dita pelo Tas. Pessoal, o racismo é algo internalizado pelas pessoas, que se manifesta em determinadas situações como essa. A questão é a seguinte: Bolsonaro nega ser racista porque é crime. Quando a homofobia for criminalizada, ele nunca mais dará esse tipo de declaração. A TV aberta brasileira não pode em nome da audiência ou da tal falada liberdade de expressão veicular manifestações preconceituosas, lembrem-se que são concessões públicas, que precisam primar por conteúdos educativos, culturais e que respeitem os direitos humanos

Pedro Martins disse...

Muito bem colocado o ponto de vista de que a liberdade de expressão torna-se desculpa, muitas vezes, para defender pontos de vista ofensivos às minorias sociais desse país.

Importante também parar para relembrar qual deveria ser o papel das emissoras, tendo em vista que são concessões públicas. Não apenas Marcelo Tas, mas o quadro inteiro de apresentadores desse programa que se pretende crítico é de um cinismo aviltante.

Engraçado que certos intelectuais se colocam acima do bem e do mal, acima das questões históricas do país, como é o caso desse tal André Forastieri: http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/2011/03/30/sobre-bolsonaro-preta-gil-e-os-limites-do-twitter/

Dani_Origuelaa disse...

O episódio Bolsonaro nos remete a várias questões, entre as principais: O que fazer com o preconceito? Até onde vai os limites da liberdade de expressão?
Ao invés de abrir um debate com a sociedade, alguns setores da mídia prefere desfocar o assunto e fugir do que realmente é sério.
Enquanto isso, Bolsonaros anônimos continuam espalhados pelo Brasil.
Triste é ver jovens que nada sofreram para conquistar a tal "liberdade de expressão" apoiarem a causa desse Deputado boçal.

Matheus Pegoraro disse...

Sinto muito meu caro Michel mas nao concordo com vc.

su disse...

Sim, o interesse é sempre a audiência...mas se a mídia não mostrar fatos como este para o povo, quem mostrará? É necessário que o povo saiba usar as diversas mídias e formar sua opinião, e conhecer bem aqueles que colocam no poder. Por mais que seja por interesse em audiência, o cqc ainda mostra algumas duras realidades políticas do país, coisa que a globo com seu incrivel bbb e suas novelas, tão em busca de audiência quanto o cqc, não o fazem - apenas alienam.

Carol Robortella disse...

Acho que este tipo de notícia deveria ser veiculado com a finalidade de uma discussão em cima disso. Fico preocupada na verdade com como algumas pessoas vão receber este tipo de coisa. Algumas saberão sim separar as coisas e ver que ele é um idiota, mas outras, não. E aí o buraco é mais embaixo... aí entra a educação que não ensinou o cara a ser crítico e se perguntar se é isso mesmo. Por isso me preocupa esse tipo de notícia veiculada assim, em horario nobre, canal aberto, programa com alta audiencia. Acho sim que esse tipo de coisa precisa ser discutido e MUITO, mas acho que não desta forma.

Ulisses Oliveira disse...

Engraçado que o CQC não se manifestou em relação ao episódio de Boris Casoy quando da humilhação aos trabalhadores "garis" ... são os defensores dos próprios interesses ... Desde o episódio não mais assisto CQC ...

Felipe Lobo disse...

Bolsonaro é uma versão tropicalizada do Jörg Haider, fascista austriaco descarado, que chegou a ser o chanceler da Austria, o papo dele era igual ao do "nosso" milico de pijamas, ironicamente morreu dopado em um acidente de carro, após ter saído de uma boate homossexual, com direito a namorado e tudo mais...