terça-feira, 24 de agosto de 2010

O ser humano sob um olhar bem diferente


O público já foi às lágrimas com robôs bem humanos no cinema. Mas, e que tal um eletrodoméstico com a voz do Selton Mello? Reflexões de um liquidificador, de André Klotzel (Memórias Póstumas), é uma comédia que mistura o sarcasmo “tarantiniano” com o tempero brasileiro. Mais do que misturar ou moer, o utensílio narra a história e desempenha um papel central nessa trama maluca e muito divertida.
Tudo começa quando Elvira (Ana Lúcia Torre) decide comunicar o desaparecimento de seu marido, Onofre (Germano Haiut), à polícia. O investigador Fuinha (Aramis Trindade), um cara muito estranho, suspeita que o sumiço trata-se de um assassinato. Elvira, então, fica transtornada diante dessa hipótese. O único que pode lhe ajudar é o liquidificador, que se torna seu confidente e cúmplice.
Mas o liquidificador já foi um utensílio normal.  Anos atrás, era usado para fazer sucos e vitaminas na lanchonete do casal, até que um dia ele pifou. Quando ganhou uma nova hélice, bem maior e mais cortante, o eletrodoméstico, como num passe de mágico, recebe consciência e passa a analisar as contradições da alma humana, fazendo analogias com os objetos.
A grande estrela do filme é Ana Lúcia Torre que está espetacular no papel de uma dona-de-casa aparentemente acima de qualquer suspeita. Selton Mello é bom até quando não aparece.  Sua narração personifica o eletrodoméstico, algo difícil de concretizar. Reflexões de um liquidificador ainda tem no elenco Fabiula Nascimento, que vive Milena, a vizinha assanhada de Elvira; Marcos Cesana, interpretando um carteiro muito mexeriqueiro e Gorete Milagres, como a enfermeira Teresa, pivô de um escândalo na trama.
O filme de Klotzel é uma grata surpresa, que faz rir e, porque não, pensar. No entanto, faltou um pouco de Tarantino no final, algo mais maluco como a própria história em si. Exibido por enquanto somente em uma sala (Espaço Unibanco Augusta), Reflexões de um liquidificador tem tudo para agradar os fãs de comédias inteligentes. Outro destaque é a trilha sonora “chiclete” que fica na cabeça do público mesmo depois de algumas horas.

sábado, 14 de agosto de 2010

Por que a Globo tenta disfarçar seu apoio?

Primeiro, foi a vinheta em comemoração aos 45 anos da emissora que tinha como mote o mesmo slogan da campanha tucana, "O Brasil pode mais". Depois de muitas críticas nas redes socias, a TV da família Marinho retirou a vinheta em nome de sua "imparcialidade".



Na última semana, a TV Globo acusou o golpe novamente e se viu obrigada a divulgar uma nota oficial (ver abaixo) rebatendo as críticas em relação às entrevistas realizadas com os candidatos a presidente no Jornal Nacional. A nota é, no mínimo, patética, ao tentar reafirmar sua "neutralidade".

Desde 2002, as entrevistas têm o mesmo tom, com todos os candidatos. Neste ano, não foi diferente. Basta comparar as entrevistas dos três candidatos, pergunta por pergunta, para perceber que tiverem o mesmo grau de dificuldade.
Apesar disso, militantes do PT reclamaram da entrevista de Dilma, militantes do PV reclamaram da entrevista de Marina e militantes do PSDB reclamaram da entrevista de Serra. Até nisso, houve equilíbrio.
A candidata do PT Dilma Rousseff disse à equipe do “Jornal Nacional”, depois da entrevista, que se sentiu muito bem tratada e que a entrevista foi como deveria ter sido. Marina Silva e José Serra também fizeram comentários semelhantes.
O papel do jornalismo da TV Globo não é agradar a partidos nem a candidatos, sejam quais forem, mas tentar esclarecer questões importantes para que os eleitores possam decidir melhor.

Mas apesar de toda essa tentativa de isenção, a família Marinho tem um lado a defender,  isso fica evidente na capa da revista Época desse fim de semana. A reportagem sobre o passado da ex-ministra Dilma deve reforçar o discurso da oposição e pautar o noticiário dos veículos globais.

Será que não está na hora de deixar claro em editorial a preferência política das Organizações Globo? A Carta Capital fez isso recentemente, aliás, essa transparência é tradição na imprensa norte-americana. A manipulação disfarçada de imparcialidade é um atentado contra a democracia, mas pensando bem, essa tática eleitoral já não convence como em outros tempos, afinal, o povo não é bobo...(quem sabe, completa)


terça-feira, 10 de agosto de 2010

O silêncio do gueto


A “quebrada” está de luto. O programa Manos e Minas chegou ao fim.

A história veio a público com o jornalista Daniel Castro, do portal R7. Em seu blog, ele anunciou que a TV Cultura iria cortar programas e demitir até 1400 funcionários. O presidente da Fundação Padre Anchieta (FPA), João Sayad, responsável pela emissora, em entrevista ao Estadão tentou relativizar a situação, mas admitiu a extinção de atrações como Login, Vitrine e Manos e Minas.

Sayad disse que a ideia é racionalizar a TV Cultura. Em nota oficial, informou que a emissora perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente. Com isso, a TV pública do estado de São Paulo, se rende a lógica do mercado e deixa de investir em produções próprias. O presidente da FPA ainda comentou que vai manter aquilo que ele considera ser o espírito da emissora. Dessa afirmação, é possível concluir que Manos e Minas não faz parte dessa lista privilegiada.

Manos e Minas estreou em 2008 com a proposta de trazer a arte das ruas para TV. O programa reunia rap, dança de rua, Djs e grafiteiros num mesmo espaço, além de mostrar outras manifestações populares, com destaque para a cultura negra. O universo da periferia era retratado sob o olhar de quem vive na pele, sem glamour ou preconceito. A atração comandada pelo talentoso Max B.O. tinha um público cativo que ficou muito indignado com a postura autoritária de Sayad.

A TV Cultura já vem sofrendo há anos com esse processo de sucateamento. Uma emissora pública é um bem que deve servir a toda a sociedade e, por isso, precisa respeitar as diversidades. A extinção do programa Manos e Minas não é uma questão meramente programática, mas também simbólica. Ao privilegiar outras atrações, a direção da FPA avaliou que elas possuem melhor custo-benefício. A política de racionalização de Sayad menospreza o som que vem dos guetos e confirma a tese de que a periferia só é valorizada na TV quando serve de cenário para filmes ou novelas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Um tempo para recordar



São Paulo, 21 de outubro de 1967. Em plena ditadura militar, ocorria a final do III Festival de Música Popular Brasileira promovido pela TV Record. Os artistas que subiriam no palco naquela noite se consagrariam como grandes nomes da MPB. As canções inéditas até aquele momento se tornariam verdadeiros hinos de um período delicado, mas de grande efervescência cultural e política. Uma Noite em 67, dos diretores Renato Terra e Ricardo Calil, resgata essa história num documentário descontraído e emocionante, com direito a revelações surpreendentes.
Chico Buarque e o MPB 4 vieram com “Roda Viva”; Caetano Veloso, com “Alegria, Alegria”, Gilberto Gil e os Mutantes, com “Domingo no Parque”; Edu Lobo, com “Ponteio”; Roberto Carlos, com o samba “Maria, Carnaval e Cinzas”; e Sérgio Ricardo, com “Beto Bom de Bola”.
O cenário musical vivia um momento de ruptura. A jovem guarda representava a alienação e a subserviência ao som norte-americano. Já a MPB, estava ligada à esquerda intelectual, nacionalista, de letras mais engajadas. Ainda nesse período, as primeiras sementes do Tropicalismo foram plantadas por Caetano e Gil. A questão cultural estava tão politizada nos anos 60 que até uma marcha contra a guitarra elétrica foi organizada.
O público também queria ser protagonista naquela noite, por isso vaiava com a mesma volúpia do que aplaudia. Os artistas pareciam que estavam entrando numa arena de leões, a tensão era grande e alguns acabaram perdendo a cabeça. O Festival, como num folhetim, apresentava "mocinhos" e "bandidos". Sérgio Ricardo acabou ficando com o segundo papel. O cantor quebrou o violão, atirando-o à plateia depois de ser duramente vaiado.
O filme traz imagens de arquivo com depoimentos inéditos dos principais personagens daquela noite: Chico, Caetano, Roberto, Gil, Edu Lobo e Sérgio Ricardo. O jornalista Sérgio Cabral (um dos jurados), o produtor Solano Ribeiro e o diretor da TV Record, Paulo Machado de Carvalho, também contam suas memórias sobre os bastidores daquele festival que transformaria a música brasileira. 
Depois de conferir Uma noite em 67, a sensação é nostálgica até para quem não viveu aquele momento tão especial. Um tempo que parecia mais vibrante, tanto no campo ideológico quanto na cultura. Um tempo em que o repórter aparecia fumando ao vivo na TV, em que festivais apresentavam o que existia de melhor na música e os grandes ídolos justificavam a histeria do público. Que inveja dessa época em que os artistas não eram fakes. 
 

Em Cartaz:
Espaço Unibanco Miramar (sala 3): 18h10 
 

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O poder da TV nas eleições


Publicado no jornal Folha de S. Paulo

TV é a principal fonte de informação dos eleitores
A televisão é o principal meio de comunicação utilizado pelos eleitores brasileiros para se informar sobre os candidatos que disputam as eleições neste ano. Segundo o Datafolha, 65% dos entrevistados afirmam que a TV é a mídia preferida para obter informações.
Os jornais aparecem em segundo lugar, com 12% de preferência, e a internet e o rádio vêm em terceiro, com 7% cada um. Conversas com amigos ou familiares são apontadas por 6%.
INTERNET - Nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, em 2008, segundo informações do Pew Research Center, instituto de pesquisa americano, a internet era a principal fonte de informação de um quinto do eleitorado do país.
No Brasil, a popularidade da rede é baixa mesmo quando o Datafolha pede para os entrevistados citarem três meios de comunicação usados para se informar: 27% mencionam a internet, que fica atrás de conversas com amigos e familiares (32%).
A TV é lembrada por 88% e continua em primeiro lugar. Em segundo vêm os jornais, com 54%, e rádio aparece em terceiro, com 52%.
O Datafolha ouviu 10.905 eleitores em 379 municípios de todo o país (exceto Roraima). A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais.
Entre os principais candidatos à Presidência, a internet tem maior penetração entre os eleitores de Marina Silva (PV): 11% dizem que a rede mundial de computadores é a principal fonte de informação, contra 7% dos que têm intenção de votar em José Serra (PSDB) e 7% dos que afirmam querer votar em Dilma Rousseff (PT).
Acima da média nacional, 70% dos nordestinos afirmam que a TV é a principal fonte de informação sobre os candidatos, e os moradores do Sudeste são os que menos preferem essa mídia (60%).
A TV é também o veículo mais citado pelos mais pobres: 68% entre os que têm renda familiar mensal acima de dois salários mínimos, em contraposição aos 47% dos que ganham acima de dez salários mínimos.
O jornal, por sua vez, tem maior penetração entre os mais ricos: 24% dos que têm renda familiar mensal acima de dez mínimos.
O melhor desempenho da internet ocorre entre os mais escolarizados (20% entre os que têm ensino superior), os mais ricos (18%) e os mais jovens (14% dos que têm de 16 a 24 anos).


COMENTÁRIO: Se por um lado, a TV é o meio em que o candidato pode apresentar melhor seus projetos, seja através dos debates ou da propaganda gratuita. Por outro, o marketing político utiliza a linguagem televisiva para construir um candidato perfeito, carismático e sem defeitos. O ideal é que o eleitor procure informações sobre os postulantes em todas as mídias, confrontando dados e avaliando a biografia de cada um. Outro aspecto importante é o posicionamento ideológico da fonte, às vezes, alguns veículos possuem interesse particular na divulgação de determinada notícia. A TV não pode ser a única fonte de informação para o eleitor, até porque o vídeo pode enganar muito, a história mostra que candidatos sem conteúdo já foram transformados em verdadeiros líderes na telinha.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A negação continua


No último dia 20, o presidente Lula sancionou o Estatuto da Igualdade Racial (Lei Nº 12.288/10) que prevê garantias e políticas públicas de valorização da população negra, que hoje é de mais de 90 milhões entre pretos e pardos. O instrumento, que é fruto de muitas lutas do movimento negro, acabou desidratado, deixando de lado, por exemplo, as cotas sócio-raciais nas universidades.

O Estatuto da Igualdade Racial na verdade é uma carta de intenções, não tendo o mesmo efeito legal que o da Criança e do Idoso. A correção de desigualdades históricas no que se refere às oportunidades e aos direitos dos afrodescendentes continua não sendo assumida pelo Estado, fica tudo como está, quem sabe um dia a realidade muda e os negros terão mais espaço na política, no mundo corporativo, no meio acadêmico e na mídia.

No que se refere aos meios de comunicação, o Estatuto diz que a produção veiculada deve valorizará a herança cultural e a participação da população negra na história do País. Além disso, na produção de filmes e programas veiculados na TV e no cinema, a lei prevê que “deverá ser adotada a prática de conferir oportunidades de emprego para atores, figurantes e técnicos negros, sendo vedada toda e qualquer discriminação de natureza política, ideológica, étnica ou artística”.

Escrito nos termos acima, até parece que de agora em diante os profissionais de mídia negros terão maior participação no mercado. A discriminação não ocorre de maneira explícita, ela se manifesta na reafirmação dos estereótipos. Na novela Viver a Vida, de Manoel Carlos, a modelo negra, interpretada por Taís Araújo, foi sutilmente trocada do papel de protagonista pela personagem vivida por Alinne Moraes. Algum estrangeiro que assiste à programação brasileira, terá a impressão que está num país europeu, tamanha é a ausência de negros na TV. Essa invisibilidade está tão arraigada na sociedade brasileira, que é vista com naturalidade.

Essa discussão é longa e polêmica. Criar cotas sócio-raciais nas universidades já é uma questão complexa, imagine fixar um percentual de profissionais afrobrasileiros na mídia. Talvez o caminho seja o negro ir para atrás das câmeras, nas funções de roteirista ou de direção, como fizeram os cineastas Joel Zito de Araújo e Jeferson De. No comando, eles puderam escalar o elenco que consideraram melhor e não o que combinava mais com o padrão estabelecido pela TV brasileira.

O respeito à diversidade étnica e cultural pode até está previsto em lei, mas só será levado a sério pelas emissoras de TV (em particular) quando sua audiência for afetada e, consequentemente, seu faturamento. Seria ingenuidade esperar que o Estatuto desperte uma tomada de consciência, trata-se de uma medida inócua. O que vale é pressionar, enviando emails para as assessorias dos canais, repercutindo abusos nas redes sociais ou mesmo boicotando atrações que ignorem a verdadeira identidade do povo brasileiro.