
A Copa do Mundo mexe com a emoção das pessoas, despertando paixão, ira, alegria e frustração. Todos esses sentimentos são captados pela mídia e superdimensionados. Uma partida de futebol se transforma numa batalha de gladiadores. Um gol não é simplesmente um gol, mas o tiro certeiro no adversário. Uma falha num jogo de quartas-de-final é como um crime cuja sentença é a execração pública sob os olhares de seus algozes, no caso, jornalistas e “especialistas” no assunto.
Como um megaevento midiático, a transmissão da Copa reúne elementos jornalísticos e de entretenimento. Para ser um espetáculo de grande audiência é preciso drama, comédia, suspense, heróis e vilões. O futebol em si não sustentaria horas e horas de transmissão, por isso, entra em cena o lado exótico do país anfitrião, a beleza das torcedoras, a família dos jogadores, a festa pelo mundo afora, vale tudo para segurar o telespectador diante da TV, mesmo sem a bola rolando.
O que mais se observou nesta Copa foi a irracionalidade de alguns jornalistas envolvidos na cobertura que agiram mais como torcedores fanáticos do que como profissionais de comunicação. Durante a chegada do ônibus da seleção holandesa ao estádio, José Luiz Datena da Band comentou que seria bom se o veículo batesse e que Robbin quebrasse a perna. O colega de emissora, Milton Neves, após a desclassificação brasileira, ameaçou o jogador Felipe Melo e sugeriu que ele não retornasse ao Brasil, promovendo uma verdadeira caça às bruxas.
Já a Rede Globo, sempre acostumada com entrevistas exclusivas e outras benesses, se viu contrariada com a postura de Dunga. Depois de um bate-boca com o repórter Alex Escobar, o técnico comprou uma briga contra um império, com direito a editorial no Fantástico repudiando sua conduta. Durante as transmissões dos jogos, tudo era motivo para criticá-lo. Quando então o Brasil perdeu para a Holanda, a vingança já estava preparada, Dunga, mesmo com seu retrospecto, foi responsabilizado pela derrota, sendo chamado de burro, destemperado e inexperiente para o cargo.
A falta de respeito com outras culturas também foi uma marca da mídia brasileira nesta Copa. Os estereótipos relacionados ao continente africano foram reforçados pela imprensa, a África do Sul foi retratada como a terra da vuvuzela, de rituais misteriosos, do safari e do ex-presidente Mandela. Essa abordagem reducionista e preconceituosa também pode ser vista na reportagem feita pela Sportv sobre o Paraguai, que ridicularizou a culinária do país, o fato de não contar com praias, sua moeda e até as músicas de uma cantora local.
Algumas partidas foram realmente emocionantes, mas o que mais impressionou durante a Copa foi o fenômeno CALA BOCA GALVAO que chegou ao trending topics do twitter. Apesar de ser uma brincadeira, essa manifestação mostra que o público não aprova os exageros de Galvão Bueno e todo seu maniqueísmo. O pior é que não tem para onde correr. Como disse alguém outro dia, o negócio é ligar a TV, colocar no mudo e escutar o jogo pelo rádio.



