sexta-feira, 15 de outubro de 2010
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Tropa 2: Uma tese simples, mas um filmaço
Sem dúvida, Tropa de Elite 2, de José Padilha, era o filme mais esperado do ano. Motivos não faltavam – da pirataria, passando pela acusação de fascista, até a consagração no Festival de Berlim. Será que Capitão Nascimento e seus ‘caveiras’ continuariam a ‘soltar o dedo’ e colocar os malandros no saco? Se o primeiro não tinha a pretensão de ser um fenômeno, a sequência foi produzida para se tornar o maior sucesso do cinema brasileiro, desde a Retomada. Perfeito tecnicamente, Tropa de Elite 2 vai agradar a maioria, com ação do começo ao fim, com doses simplificadas de reflexão.
Capitão Nascimento (Wagner Moura), quinze anos mais velho, passa a ser comandante geral do BOPE e depois sub-secretário de inteligência. Ao fazer parte da cúpula da segurança pública do Rio de Janeiro, ele descobre, como o próprio subtítulo do filme diz, que "o inimigo agora é outro". No vácuo dos traficantes, policiais milicianos começam a tomar conta das comunidades, cobrando propina por serviços como “gatonet” e entrega de gás. A espinha dorsal do esquema inclui figuras da política, como deputados, secretários estaduais e até mesmo o governador.
Apesar de o filme alertar no começo que se trata de uma obra ficcional, a história é bem verossímil, com elementos que remetem a alguns fatos recentes da realidade. O deputado de esquerda, que defende os direitos humanos e quer abrir um CPI para investigar a polícia. A jornalista que arrisca a própria vida para conseguir provas contra os acusados. O apresentador sensacionalista de um programa policial que enaltece a ação do BOPE para obter mais audiência. Todos esses personagens mais o próprio Nascimento dão um ar de “baseado em fatos reais”, a estratégia cativa o público e confere veracidade.
Nesta sequência, Nascimento além de combater o sistema, precisa conviver com o distanciamento de seu filho. Para piorar, o padrasto do garoto é um de seus grandes desafetos. O comandante do BOPE se mostra mais humano em Tropa 2, apesar de seu jeito durão. O ‘herói’ é um cara sozinho, cheio de conflitos, que já não sabe porque aperta o gatilho. Wagner Moura está espetacular na pele desse ser tão complexo. Sua interpretação é um dos destaques do filme. Outras atuações marcantes são de Iradhir Santos, como o deputado Fraga, e Sandro Rosa como o policial miliciano Rocha.
Tropa 2 também salta aos olhos por seu resultado na telona. Cenas alucinantes que lembram os melhores filmes de ação norte-americanos. Fotografia e edição perfeitas. O roteiro, assinado por Braulio Mantovani, é bem construído e ajuda a dar ritmo a história. O único problema nesse sentido são algumas passagens, que poderiam ser excluídas na montagem, como a dos policiais milicianos numa lancha e a do governador reclamando do material de campanha.
Talvez o que mais incomode em Tropa 2 seja seu fatalismo. A narração do Capitão Nascimento não permite ao público outra conclusão que não esta: os políticos são os grandes culpados e o povo que os elegem é cúmplice. Uma tese que fica na superficialidade, mesmo quando tenta mostrar o embate entre esquerda e a direita em termos de discurso no combate à violência. Mas nada disso parece preocupar Padilha, que deseja simplesmente mostrar a barbárie em que a sociedade vive. Com simplificações sociológicas ou não, o longa cumpre seu papel ao tocar em questões importantes. Além disso, muitos espectadores querem ver mesmo o Capitão Nascimento esculachando os criminosos e repetindo um de seus bordões, como “pede para sair”.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Memórias, encenações e um personagem singular
Pedro de Almeida, garimpeiro de 81 anos de idade, comanda como mestre de cerimônias o velório, o cortejo fúnebre e o enterro de João Batista, que morreu com 120 anos. O ritual sucede-se no quilombo Quartel do Indaiá, distrito de Diamantina, Minas Gerais.
Com uma canequinha esmaltada, ele joga as últimas gotas de cachaça sobre o cadáver já assentado na cova: “O que você queria taí! Nós não bebeu ela não, a sua taí. Vai e não volta pra me atentar por causa disso não. Faz sua viagem em paz”.
Dessa maneira acaba o sepultamento de João Batista, após 17 horas de velório, choro, riso, farra, reza, silêncios, tristeza. No cortejo, muita cantoria com os versos dos vissungos, tradição herdada da áfrica. Descendente de escravos que trabalhavam na extração de diamantes, nas Minas Gerais do tempo do Brasil Império, Pedro é um dos últimos conhecedores dos vissungos, as cantigas em dialeto banguela cantadas durante os rituais fúnebres da região, que eram muito comuns nos séculos 18 e 19.
Garimpeiro de muita sorte, Pedro já encontrou diamantes de tesouros enterrados pelos antigos escravos, na região de Diamantina. Mas, o primeiro diamante que encontrou, há 70 anos, o tio com quem trabalhava o enterrou e morreu sem dizer onde. Depois disso, vive sempre em uma sinuca: para reencontrar o diamante só se invocar a alma de seu tio João dos Santos. “É um diamante e tanto, você precisa ver que botão de mágoa”. Ao conduzir o funeral de João Batista, Pedro desfia histórias carregadas de poesia e significados metafísicos, que nos põem em dúvida o tempo inteiro: João Batista tinha pacto com o Diabo?; O Diabo existe?; estamos sozinhos, ou as almas também estão entre nós?; como Deus inventou a Morte?
A atuação de Pedro e seus familiares frente à câmera nos provoca pela sua dramaturgia espontânea, uma auto-mise-en-scène instigante. No filme, não se sabe o que é fato e o que é representação, o que é verdade e o que é um conto, documentário ou ficção, o que é cinema e o que é vida, o que é africano e o que é mineiro, brasileiro.
O que diz o diretor:
“Na virada de 2004 para 2005, estava enredado pelo livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Famoso por atrair ao sertão de Minas Gerais gente de todo o mundo, o livro fez com que eu e minha mulher imprimíssemos uma viagem em busca do sertão mítico e profundo retratados pelo escritor.
No caminho, encontrei Pedro Vieira, conhecido como Pedro de Alexina, guardião das tradições fúnebres que os africanos trouxeram para a região de Diamantina no século 18. Esse encontro transformou minha viagem em uma expedição ao imaginário da tradição oral que remonta aos povos andantes. Essas histórias emendam-se umas nas outras, misturando os contos populares ao mundo vivido e a uma miríade de mitos de diferentes origens.
Dois anos depois, em maio de 2007, voltei ao Quartel do Indaiá, comunidade remanescente de quilombo, para fazer um filme com seu Pedro. Foram 30 dias de filmagens. Mediado pela imaginação, pela memória dos antepassados e de suas histórias, Pedro me levou a um lugar onde o sertão encontra a África de séculos atrás, onde a morte encontra a vida e onde Deus e o “Outro” coexistem”.
Em tempo: Conferi Terra deu Terra come no sábado e não tive inspiração suficiente para escrever algo à altura da magnitude desse filme instigante. Mas reproduzo aqui o release, divulgado no site oficial do longa e o depoimento do diretor Rodrigo Siqueira.
Em exibição no Espaço Unibanco Miramar 18h
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Mídia Cidadã apoia Luiza Erundina
O signatário deste blog conheceu a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) numa palestra na Universidade Federal de São Paulo, em Santos. Neste evento, ela afirmou que tão importante quanto a reforma política, é a reforma nas comunicações. Um pouco antes da palestra, tive a oportunidade de trocar algumas ideias com a deputada, lembro que a parabenizei por sua atuação em favor da Confecom (Conferência Nacional da Comunicação) e ela me falou que estava sendo “massacrada” por causa disso. Imagino que cutucar grandes impérios de mídia seja realmente uma cruzada de Davi contra Golias.
A deputada Luiza Erundina é uma guerreira incansável contra o monopólio dos meios de comunicação. Defensora da democratização das comunicações, Erundina é a parlamentar que mais luta para acabar com as distorções que existem em torno da radiodifusão brasileira.
A deputada defende o controle social dos meios de comunicação como instrumento para garantir a própria democracia brasileira. Para ela, é preciso assegurar leis que tornem real o direito à comunicação.
Erundina é considerada uma das parlamentares mais influentes do Congresso, como revela o DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). Ela é finalista do Prêmio Congresso em Foco 2010 que destaca os melhores congressistas. A deputada ainda tem um grande trabalho nas áreas da infância, dos direitos da mulher e da cultura.
Por tudo isso, o blog Mídia Cidadã apoia e recomenda a reeleição da deputada federal Luiza Erundina. Sua fala durante o ato contra o golpismo midiático só aumenta a convicção da escolha certa. A luta deve continuar!!!
Em tempo: Luiza Erundina foi a 10ª deputada mais bem votada de São Paulo, tendo recebido 211.848 votos de confiança. O Mídia Cidadã parabeniza a parlamentar e espera que ela continue lutando por todos nós no Congresso.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
O medo se avizinha
O que pode fazer um homem simples, honesto e trabalhador ao perceber que a paz de sua família está ameaçada? Esse é o grande dilema de Valter (Marat Descartes) em Os Inquilinos, de Sergio Bianchi. O mais panfletário e ácido diretor brasileiro abandona seu didatismo, investindo numa trama cheia de mistério e dramaticidade. A história mostra que é preciso ter nervos de aço para conviver com a ameaça que mora ao lado.
Como muitos brasileiros, Valter trabalha durante o dia e estuda à noite. Sua mulher, Iara (Ana Carbatti) é dona-de-casa e cuida dos dois filhos do casal. A tranquilidade da família é quebrada quando novos vizinhos se mudam. Os três rapazes, que ninguém sabe de onde vieram, não trabalham e vivem fazendo festinhas regadas a música alta, bebidas e mulheres. Seu Dimas (Umberto Magnani), que mora no mesmo lote, é refém da truculência desses inquilinos muito suspeitos.
Os excessos dos novos vizinhos irritam Iara, que observa tudo de sua janela. Ela desconfia que os rapazes são bandidos e estão envolvidos com algo muito grave. Todo dia, Valter escuta o relato da esposa, isso faz com que ele comece a se sentir pressionado. Como “provedor” e macho, não pode deixar sua família correr risco. Esse sentimento domina a cabeça de Valter, que não é de briga e só quer dormir depois de uma cansativa jornada. Um desfecho trágico será inevitável?
Depois de filmes-tese como Quanto Vale ou é por Quilo? e Cronicamente Inviável, Bianchi agora mostra que pode tocar em questões sociais, apenas contando uma boa história. Os Inquilinos transmite o clima de medo que domina a maioria das cidades brasileiras. Conviver com a violência é um traço da sociedade atual. O longa faz alusão aos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) em 2006, que acabou paralisando São Paulo.
O elenco se destaca pela naturalidade das interpretações, principalmente Marat Descartes, que torna Valter um sujeito muito familiar. O longa ainda conta com as participações especiais de Caio Blat e de Cássia Kiss que, aliás, está brilhante como uma professora de português. Realmente, a maior virtude de Os Inquilos é a simplicidade. Um retrato do cotidiano da periferia, não somente ligado à violência, mas a valores como honra e família. E Bianchi ressalta isso nos detalhes.
sábado, 11 de setembro de 2010
Números que dizem quase tudo
Já é tradição. O dia é riscado no calendário. A pauta preestabelicidda. A capa do jornal reservada. Os jornalistas não veem a hora de repercutir. A divulgação de estudos do IBGE ou de outras instituições de pesquisa é um bálsamo para as redações, ávidas por um assunto que renda boas matérias. Dependendo da linha editorial do veículo, os números apresentados serão superdimensionados ou relativizados, principalmente em tempos de campanha eleitoral. No centro de tudo isso, o cidadão, que não sabe se o Brasil vem melhorando ou não.
Primeiro, vamos a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada na última quarta (dia 8):
Segundo a pesquisa, o índice de lares brasileiros que ainda não têm acesso a rede coletora ou fossa séptica chega a 26,4%. Isso significa que cerca de um em cada quatro casas utilizam formas irregulares de esgotamento ou deixam os dejetos a céu aberto.
No mesmo levantamento, 98,2% dos domicílios têm luz, um acréscimo de 0,5% em relação ao ano anterior. Em relação ao abastecimento de água, 83,3% das casas brasileiras possuem esse serviço, o ritmo de 2007 foi o mesmo do ano anterior: 0,1%. A coleta de lixo atinge 87,5% dos domicílios brasileiros, um acréscimo de 0,9% comparado a 2006.
Ainda segundo a Pnad, um em cada cinco brasileiros com 15 anos ou mais é analfabeto funcional. O número corresponde a mais de 29 milhões de pessoas, ou 20,3% da população nesta faixa etária, que é de 143 milhões. No período de 2004 a 2009, o analfabetismo entre os brasileiros com mais de 15 anos caiu de 11,5% para 9,7%.
Já a pesquisa A Nova Classe Média: o lado brilhante dos pobres, da Fundação Getúlio Vargas revela que cerca de 3,1 milhões de pessoas das classes D e E migraram para o segmento C, entre 2008 e 2009. Com isso, 94,9 milhões de pessoas passaram a compor a classe média, totalizando 50,5% da população. A pobreza, representada pela classe E com 28,8 milhões de pessoas, recuou 4,34% em plena crise, isso significa que um milhão de brasileiros cruzou a linha da miséria.
Até julho deste ano, o mercado formal de trabalho criou 181.796 vagas, segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho e Emprego. Com isso, o saldo acumulado em 2010 chega a 1.655.116 empregos com carteira assinada, representando uma expansão de 5,02%, no melhor resultado para o período, desde que foi criado o índice.
Diante de tantos números, o leitor fica perdido, não tendo a noção exata do que eles representam em termos de avanço ou retrocesso. A expansão de serviços básicos, como rede de esgoto e abastecimento de água, tem sido lenta no Brasil? Lógico que sim, principalmente para um país que pretende ser a quinta economia mundial. Mas se pensarmos que o país possui dimensões continentais, com abismos entre os estados da federação, podemos ter uma ideia das dificuldades para conseguir a cobertura total desses serviços.
Quando o assunto é economia, a imprensa costuma comparar o crescimento do PIB brasileiro ao da China ou da Índia, mas isso é factível? Apesar de nações emergentes, há grandes diferenças em relação ao regime de trabalho e ao tipo de mercado que caracteriza cada país. Aspectos históricos e culturais também são ignorados nessa análise comparativa. Seria mais razoável ter como referência os números de nossos vizinhos, como a Argentina.
Parece que os dados são manipulados conforme o enfoque que o jornal pretende dá a matéria. As análises seguem uma linha ora alarmista ora otimista, faltando equilíbrio para uma interpretação mais precisa e dentro da realidade. Aquela máxima de que os números não mentem jamais não se aplica necessariamente ao trabalho da imprensa. A apresentação de pesquisas sem a devida contextualização não favorece o debate, pior, torna o assunto restrito a tecnocratas, especialistas em decodificar números.
A discussão em torno dos resultados apresentados pela Pnad é importante para que a opinião pública cobre ações efetivas do Estado, com metas e prazos bem definidos. Não há mais como conviver com esse índice tão elevado de lares sem esgoto ou de brasileiros em situação de miséria, mesmo que esse quadro venha mudando nos últimos anos.
O jornalista precisa enxergar além dos números frios, afinal, por trás de gráficos e tabelas sobre o analfabetismo, existem milhares de pessoas que não sabem ler nem o próprio nome.
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